quinta-feira, 21 fevereiro 2019
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‘Tremendão’ em cena – Cultura

Em São Paulo, na porta de um restaurante de hotel, o cineasta Lui Farias estava com a mulher, a cantora Paula Toller, quando Erasmo Carlos apareceu. O diretor se apresentou, como de praxe, e ouviu do Tremendão uma resposta em forma de pergunta: “Faria, Farelo ou Farofa?”. Farias ficou sem reação, levando alguns segundos até a ficha cair.

“Fui obrigado a me lembrar da infância, de como ele chamava a mim e aos meus irmãos durante as filmagens de ‘Roberto Carlos e o Diamante Cor-de-rosa’, realizado por meu pai”, recorda.

Esse “humor meio retardado, em que você é obrigado a pensar nele”, foi o que o cineasta buscou reproduzir em “Minha Fama de Mau”, que estreia nesta quinta-feira.

Baseado na autobiografia homônima de Erasmo, o filme vem na esteira das produções musicais que tomaram conta do cinema brasileiro após o lançamento de “Tim Maia”, “Elis” e “Simonal”. E chega num ano em que o gênero renova seu status nas indicações ao Oscar, com a presença de “Bohemian Raphsody” e “Nasce uma Estrela”.

 

RECORTE

Bem-humorado, longe de tentar contar toda a história do cantor, “Minha Fama de Mau” busca fazer mais um recorte, falando principalmente da música de Erasmo, como frisa Farias. “A diferença para as outras cinebiografias é que ela reúne memórias de um cara que está vivo. Escolhi um recorte, a Jovem Guarda, e tentei fazer algo que representasse, da melhor forma possível, o temperamento e a personalidade dele”.

Esse desejo transparece no filme no uso de animações, referências a quadrinhos e nas vezes em que o personagem interpretado por Chay Suede fala diretamente para a câmera. Farias procurou nas músicas algumas pistas de quem era aquele garoto carioca da Tijuca que queria participar do nascente movimento do rock’n’roll.

Ao mergulhar nas memórias do cantor, o diretor se deparou com uma situação curiosa, ao descobrir que a amizade com Roberto Carlos foi refeita após o “Rei” pedir a Erasmo uma música de abertura para o filme “Roberto Carlos em Ritmo de Aventura” (1967), dirigido pelo pai de Lui, Roberto Farias, falecido em 2018. “Senti que tinha feito uma continuação para a trilogia do meu pai”.

INCOMPREENDIDO

O filme, de certa forma, também recupera e valoriza o papel de Erasmo na Jovem Guarda, impressão que aumenta com a utilização de músicas inteiras de Erasmo, Roberto e Wanderléa –a linha de frente do movimento.

“Quando estava editando, pedi para deixá-las todas completas, para mais tarde olhar o ponto de cortá-las. No final, percebi que o filme fluía bem com elas, com um astral bacana. Para mim, o filme corre meio por fora, como o Erasmo, que tem talentos múltiplos, tocando rock, bossa nova, MPB e samba. Ele gostava de transitar livremente e, por isso, tornou-se um cara incompreendido”, analisa Farias.

Despretensioso e divertido

Quando se aproxima o momento em que a política dá pistas de entrar em cena, devido às transformações socioculturais ocorridas na segunda metade da década de 1960, “Minha Fama de Mau” chega ao seu final.

O recorte criado pelo roteirista e diretor Lui Farias é de um Brasil ingênuo, sonhador e divertido, apesar de todas as mazelas.

Esse retrato está estampado, principalmente, em um Tremendão jovem, pobretão, bonito, de auto-estima elevada e que promete à mãe que comprará uma casa em frente à praia. É o que faz o filme se distanciar das cinebiografias musicais de Tim Maia, Elis Regina e Wilson Simonal, dramas que percorrem os altos e baixos dos protagonistas e do país, e mirar o espírito do “american dream”.

Assim como os personagens dos filmes de Hollywood, Erasmo aproveita todas as chances que lhe aparecem para vencer.

É esse tom mais despretensioso que possibilita ao filme deter-se mais, por exemplo, na juventude do cantor, diferentemente de outras cinebiografias, que parecem acelerar essa fase para chegar logo ao instante da ribalta.

Nesse Brasil colorido e efervescente, as imagens de arquivo entram de forma orgânica na edição, reforçando o contato com o público jovem promovido pelo movimento da Jovem Guarda.

Nos poucos minutos em que aponta para o drama, quando Erasmo encerra a parceria com Roberto Carlos, o filme também sofre um baque, ao abandonar de uma vez todos os recursos que sustentavam o dinamismo da narrativa. Mas não chega a prejudicar o resultado, que deixa claro, ao final, a filiação aos despretensiosos filmes dirigidos pelo pai de Lui, Roberto Farias, com o “Rei” entre 1960 e 1971.


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