quinta-feira, 21 novembro 2019
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Temperos brasileiros

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Boa parte do trecho final de “Minha Vida em Marte”, que terá pré-estreia nos dias 25 e 26, acontece em Nova York, repetindo uma opção presente em praticamente todas as comédias recentes do cinema nacional: o exterior como último estágio da ascensão da classe média ao paraíso do consumo a partir do empreendedorismo.

Primo bastante próximo de “De Pernas pro Ar”, a continuação de “Os Homens são de Marte… E é pra Lá que Eu Vou” (2014) também exibe uma mulher independente e bonita que, em contraposição ao bom momento profissional, enfrenta crises amorosas. Nos dois casos, a Big Apple se torna o ápice deste conflito.
 
REALIDADE SOCIAL
Cenário também de “Minha Mãe é uma Peça 2” e “Até que a Sorte nos Separe 2”, os Estados Unidos aparecem como espécie de artifício dramatúrgico para, numa sequência, ampliar os quiprocós do filme original. Fonte de piadas geográficas e linguísticas, a mudança de ares também é representativa de uma realidade social do país.

Antes, o Tio Sam surgia no cinema brasileiro como uma fuga, um recomeço motivado pela falta de oportunidades no Brasil, colocando como protagonistas emigrantes. Agora, ele significa uma pausa, um recomeço que diz mais respeito às questões afetivas e profissionais. Em “Minha Vida em Marte”, assinado por Susana Garcia, é uma mudança de chave.

É para lá que Fernanda vai, ao lado do amigo e sócio Aníbal, para recuperar as energias após a separação. Eles visitam galerias, parques e, claro, fazem compras. Ações que apontam para um estado de liberdade que se contrapõe à ideia de comprometimento presente na atividade da dupla, à frente de uma produtora de cerimônias de casamento.
 
DESLOCAMENTO
No primeiro filme, dirigido por Marcus Baldini, as piadas giravam em torno do fato de Fernanda, veterana em promover festas de matrimônio, estar solteira aos 40 anos. Na segunda parte, frustrada com a relação, ela vê o outro lado da felicidade estampada nos casamentos. É interessante observar que, para fugir da tristeza, Fernanda vive em deslocamento constante.

Sempre com Aníbal a tiracolo, ela passa por academia de cross fit, hidroginástica e várias viagens, dentro e fora do país. Ou seja, toda uma sorte de opções que se tornaram constantes na agenda da classe média brasileira nos últimos 20 anos. Registro que se cola a esta nova mulher que não tem mais no casamento o ideal de vida.
 
AMIZADE
Uma embalagem que funciona bem principalmente por conta da boa química da dupla Mônica Martelli e Paulo Gustavo, com diálogos sempre divertidos, apostando na insegurança de Fernanda e na franqueza de Aníbal. A atuação deles vai em direção ao mote do filme, que, na ausência de um grande amor, dá grande valor à amizade.

Nova missão dos DPA na telona
A produção infantil “DPA 2 – O Mistério Italiano”, derivada de um programa exibido no canal Gloob (TV por assinatura), é mais um caso de continuação com passaporte carimbado. A ação levada para a Sicília, porém, é só um atrativo geográfico, já que o terreno italiano poderia ser substituído por qualquer outro lugar no Brasil.

A vontade de acentuar essa mudança de ambiente, com a entrada em cena do avô do personagem Pippo e as brincadeiras linguísticas, é o que mais deixa a desejar nesta sequência, que mostra o trio de detetives mirins às voltas com o desaparecimento da sobrinha da síndica do prédio onde moram.

A Sicília é a sede de um encontro de bruxos de todo mundo, onde exibirão os próprios inventos. Entre eles estão Teobaldo e Leocádia, a síndica que, na série, inferniza a vida dos meninos. Dois bruxos, no entanto, pretendem aproveitar o momento para sugar toda a energia dos colegas de vassoura.

Motivado talvez pela recente troca de atores (Claudia Netto assumiu o lugar de Tamara Taxman, que participou de dez temporadas e do primeiro filme), o roteiro se concentra menos em Leocádia, abrindo espaço para os novos vilões interpretados por Diogo Vilela e Fabiana Karla.
 
PONTO ALTO
Longe do cinema há dez anos, desde a comédia “A Guerra dos Rocha” (2008), Vilela é um dos pontos altos de “O Mistério Italiano”, no papel de um bruxo que está morrendo (a razão nunca é explicada) e precisa da voz de crianças para conseguir rejuvenescer – um mote, por sinal, caro aos filmes de terror.

Apesar de o cinema possibilitar desenvolver melhor os personagens de TV, os roteiristas optaram por apostar mais no enredo de aventura do que trazer novas informações sobre os detetives – a não ser pela relação de Pippo e do avô. A ação ganha maior relevo, ancorada pelos efeitos especiais.

 

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