quinta-feira, 24 outubro 2019
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Quase 80% das jovens foram vítimas de assédio no Brasil

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Assobios, comentários de cunho sexual, olhares insistentes e toques sem consentimento fazem parte do cotidiano da maioria das mulheres no país. “Quase todos os dias, homens mexem comigo na rua. São expressões como ‘fiu-fiu’ e ‘gostosa’. Sinto-me invadida e tenho medo de reagir. Apenas ando em frente, sem olhar”, relata a universitária Yasmin Nogueira, 19.

Nos últimos seis meses, 78% das brasileiras entre 14 e 21 anos foram vítimas desse tipo de abuso nas ruas e outros espaços públicos. É o que aponta uma pesquisa da organização internacional de combate à pobreza ActionAid, ligada à ONU, que entrevistou 5.560 jovens em quatro países.

O resultado coloca o Brasil como líder do ranking de lugares onde as mulheres sentem medo diário de serem assediadas (53%). Os outros países pesquisados foram Quênia (24%), Índia (16%) e Reino Unido (14%).

O levantamento teve como objetivo descobrir quando e onde as mulheres começam a ser expostas ao ódio – o que define o termo misoginia. Além disso, era necessário também entender como as experiências generalizadas de assédio sexual ocorrem durante a adolescência.

Quando questionadas sobre quais tipos de agressão sofreram, as participantes relataram que haviam sido vítimas de assédio verbal (41%), assobios (39%) e comentários negativos sobre sua aparência em público (22%).

“A ideia de que mais da metade das jovens sai de casa todos os dias temendo sofrer algum tipo de violência é alarmante. Indica o nível de normalização de atitudes que agridem e provocam danos em suas vidas. Sentir medo não é normal”, afirma Ana Paula Ferreira, coordenadora de Direito das Mulheres da ActionAid no Brasil.

A pesquisa ainda aponta que os principais praticantes de assédio são pessoas da família (39%) e amigos (34%). Além da importunação sexual nas ruas e espaços públicos, outros ambientes servem de cenário: redes sociais (55%), filmes, programas de TV (43%) e letras de músicas (34%).

Fazendo barulho. Segundo a psicóloga Rebeca Fátima, os resultados sugerem que a consciência sobre os riscos aos quais as mulheres ficam expostas aumenta com o passar do tempo. “Estamos num país onde há uma naturalização do assédio por parte da sociedade, principalmente na rua e nos espaços públicos. No entanto, as brasileiras estão tomando cada vez mais conhecimento de que essa ‘legitimação’ é inválida em todos os sentidos”, pontua.

Impactos são sentidos por toda a vida

Para muitas pessoas, o assédio pode parecer algo engraçado, que entretém e aproxima os outros. Um simples elogio não requisitado, no entanto, provoca inúmeros impactos – e que podem durar por toda a vida.

“Muitas brasileiras alteram suas rotinas, desmotivam-se nas escolas e criam estratégias para transitar pelas ruas, a fim de evitar se expor nos espaços públicos. Elas estão iniciando a vida adulta, e isso impacta seu desenvolvimento pessoal, econômico e social”, diz Ana Paula Ferreira.

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