domingo, 17 novembro 2019
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Psicopatas de colarinho branco | EL PAÍS Semanal

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Se pensarmos em um psicopata, a imagem de um assassino em série nos vem à cabeça. No entanto, há muito mais psicopatas do que assassinos em série. Sujeitos maquiavélicos no sentido estrito. A frase “Os fins justificam os meios” é atribuída a Maquiavel. Além de escritor, o autor de O Príncipe foi filósofo e diplomata. Estava situado na primeira linha das altas esferas, onde se travavam batalhas políticas sem quartel, nas quais se decidia quem ocuparia o trono ou quem usaria o Anel do Pescador. Maquiavel foi um grande observador daqueles que moviam as cordas do mundo, mas que raramente manchavam as mãos de sangue.

É fácil falar de maldade e psicopatia quando nos referimos a personagens situados no limite da sociedade: o assassino de crianças indefesas, o alto executivo que enche os bolsos à custa de pessoas que trabalham em condições subumanas em fábricas a 10.000 quilômetros de distância ou o político que encontra armas de destruição em massa onde basicamente há petróleo. Esses psicopatas são muito evidentes, embora apenas o primeiro suje as mãos. Os outros dois são frequentemente admirados, pertencem a esferas socioeconômicas de difícil acesso e só ocasionalmente o opróbrio os persegue.

Existem inúmeros contextos em que todos – e digo todos – nós podemos ser malvados. Que não nos ponham à prova

Fora desse limite social, ninguém é mau em termos absolutos. 1% da população é classificada como psicopata. São sujeitos insensíveis, egoístas, despreocupados com o bem-estar dos outros, que não sentem empatia nem culpa. Essa porcentagem parece subir a 4% em executivos, políticos ou pessoas que ocupam cargos de alta responsabilidade.

Se todas as coisas ruins que acontecem no mundo todos os dias se devessem a esses poucos psicopatas que são capazes de cometer as piores tropelias, a vida seria mais fácil. O problema é que a grande maioria de nós é capaz de mostrar essa falta de empatia e essa maldade, talvez em menor grau ou com menos frequência do que eles. A realidade é que nem todas as coisas ruins são feitas por psicopatas e nem tudo que os psicopatas fazem é ruim.

Quando se fala de maldade não se fala de pessoas nem de grupos de indivíduos, de profissões, de posições sociais, de doentes mentais; assim como não se fala de raça, sexo ou orientação sexual. A maldade é a consequência de um ato. É derivada de um comportamento ou um pensamento compartilhado – e, portanto, um comportamento. Um pensamento íntimo não se torna malvado se não for executado. A maldade é uma decisão tomada em um momento e em uma circunstância. Não podemos saber o que cada um de nós faria em uma situação teórica. Podemos suspeitar do que faríamos com base na situação em que estamos no momento em que nos fazem a pergunta, mas será apenas uma aproximação. Somente a pessoa que fez o que fez sabe por que o fez e sob quais circunstâncias. Não há determinismo. Custa menos ao psicopata do que ao resto das pessoas fazer o mal, mas a personalidade é apenas mais um fator no contexto.

Psicopatas de colarinho branco


O cérebro do psicopata funciona de maneira diferente do da maioria das pessoas, assim como o cérebro de um músico funciona de maneira diferente. Genética e cérebro estabelecem as bases para o mal; a sociedade coloca o contexto. Nenhum desses elementos é suficiente e todos são necessários. Ninguém nasce condenado a ser músico, assim como ninguém nasce condenado a ser mau. Para ser músico é preciso mais do que talento; para ser mau é preciso algo mais do que ter pouca empatia: é preciso decidir fazer o mal em vez do bem. O psicopata é definido pelo preço que está disposto a pagar e em troca de qual benefício. Isto é, a maldade é o resultado de um dilema moral. Todos nós resolvemos isso de uma maneira muito semelhante. O que nos diferencia é onde colocamos os limites.

Contemplando um caso extremo se vê com claridade: matar em troca de dinheiro. Mas o que acontece quando compartilhamos os valores que levam outra pessoa a fazer o mal? O que aplaina o caminho para o psicopata de colarinho branco – ou para o nosso chefe, que, mais ou menos mau, geralmente não é psicopata – é que compartilhamos os valores que ele defende. Consentimos e toleramos seu abuso porque, de alguma forma, o entendemos. Ele defende um território ao qual nós aspiramos ou do qual dependemos. Quanto maior for o respeito pelos sentimentos e valores do outro, maior deve ser a recompensa para justificar uma decisão que pode ser moral ou normativamente repreensível, e quanto menos envolvidos estivermos com os sentimentos de terceiros, menos valor atribuiremos aos seus sentimentos. Por exemplo, se disputamos uma promoção com um colega que respeitamos e admiramos, tenderemos a jogar limpo. Se considerarmos nosso adversário um ser desprezível, tenderemos a ser mais frouxos com as regras. Até seríamos capazes de jogar sujo. Se não for um colega, mas um estranho que vem de um escritório distante, nossos critérios morais também serão mais frouxos.

Na prática, todos nós servimos alguém, mas todos nós temos alguém que nos serve. Todos os dias. Tendemos a não observar nossa atitude em relação àqueles que aspiram ao território que ocupamos. Podemos ser muito empáticos, mas se não prestarmos atenção, nunca saberemos se sofrem. É difícil pensarmos que, para eles, talvez nós também sejamos malvados.

Existem inúmeros contextos em que todos – e digo todos – nós podemos ser malvados. Que não nos ponham à prova.

Lola Morón é psiquiatra e especialista em neuropsiquiatria.

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