quinta-feira, 21 novembro 2019
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Os intelectuais italianos, perdidos diante do populismo | Cultura

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Giulio Andreotti, um gênio do mal transfigurado sete vezes em primeiro-ministro democrata-cristão, tinha sempre a palavra exata à dificuldade mais endiabrada. O relato, uma nebulosa nas hemerotecas, diz que nos anos 80 ele visitou a Espanha para observar de perto a Transição. Os jornalistas insistiram em saber seu veredito. Na terceira vez, deu um sussurro tão baixo como certeiro que definiria durante décadas a defasagem intelectual e política entre os dois países: “Manca finezza” (falta sutileza).

A Itália sempre cultivou essa sutileza baseada na capacidade para encontrar soluções em momentos de decomposição sem renunciar à densidade intelectual. Um tecido cultural e um universo político que avançaram historicamente de mãos dadas: o velho sonho do partido comunista. Os intelectuais – Italo Calvino, Leonardo Sciascia, Pier Paolo Pasolini, Umberto Eco, Renato Guttuso… – davam vigor ao corpo ideológico da esquerda através de estruturas políticas e midiáticas hegemônicas que hoje perderam influência. O silêncio se forma em torno do governo populista, em parte também pela renúncia da velha classe de pensadores italiana em intervir no debate público. Também pela fratura criada entre dois mundos que não se reconhecem além de onde triunfa o populismo: a rua e a academia.

A brecha nunca foi tão evidente. Em uma sequência de Abril (1998), Nanni Moretti observa atônito como Silvio Berlusconi engole Massimo D’Alema em um debate na televisão. Então grita a ele de seu sofá: “Diga algo de esquerda, D’Alema!”. Diante das mordidas do Crocodilo (como Berlusconi era conhecido), o cineasta arfa e acaba se conformando: “Diga algo…”. Na Itália não há uma esquerda a quem gritar 20 anos depois, mas também não há um Moretti promovendo as ideias (ainda que tenha acabado de lançar um novo documentário). São os efeitos tóxicos de uma neblina difícil de transitar para seus intelectuais, desorientados com os novos canais de comunicação do discurso político e a dificuldade de combater uma forma de pós-verdade viralizada dos próprios gabinetes do Governo. Quando a mudança começou?

Rebobinar a história

Filippo Ceccarelli, autor do extenso Invano. Il Potere in Italia. Da De Gasperi a questi qua, uma revisão histórica sobre a decadência da política italiana que lidera a lista de mais vendidos de 2018, pede para que se rebobine a fita dessa história até a noite de 2 de novembro de 1975 na praia de Ostia, onde foi assassinado Pier Paolo Pasolini em circunstâncias nunca esclarecidas. Sua morte, como a do ex-primeiro-ministro Aldo Moro, representa uma ruptura histórica ao pensamento italiano. “Foi o último intelectual, foi uma espécie de profeta. Superado isso, tudo muda”, diz em sua casa do Trastevere romano, onde guardava seu fabuloso arquivo político antes de doá-lo à biblioteca da Câmara dos Deputados. Ceccarelli lembra do diretor romano e sua influência em políticos como o líder socialista Nenni – a quem dedicou uma poesia – e o Partido Comunista. Mostra Enrico Berlinguer no YouTube e seu forte último comício em Pádua enquanto um AVC bombardeava seu cérebro. “Hoje você não deve olhar os intelectuais, olhe a tecnologia. Berlusconi, a publicidade, o consumo… tudo isso determinou realmente as modificações individuais e coletivas. O intelectual que entende as coisas e as distribui acabou há tempos”, afirma.

O debate, pedem alguns dos entrevistados para essa reportagem, deve começar por uma questão anterior: O que é um intelectual em uma sociedade de caráter populista? Nuccio Ordine, autor de A Utilidade do Inútil, dispara contra a Universidade como origem da mudança. “Os professores eram pessoas militantes que pensavam que o saber estava sempre a serviço de um horizonte civil. Hoje se perde de vista essa linha. As reformas [iniciadas nos tempos de Berlusconi] transformaram os professores em burocratas, essa consciência civil está se dissolvendo”, afirma revisando algumas das teses de Gli uomini non sono isole, seu último livro. “O produto do populismo é muito perigoso ao tecido cultural e afeta também o nível político, cada vez mais baixo. Dois fenômenos que devem ser lidos juntos: quando o intelectual é um burocrata e perde o horizonte civil que deveria mover suas escolhas, é normal que tudo isso ocorra. Mas por que é aceito nas universidades?”.

Uma pista leva à queda dos dois blocos que promoveram o pensamento político italiano durante 40 anos: a Democracia Cristã e o Partido Comunista. O fim da hegemonia cultural sonhada por líderes como Palmiro Togliatti, como lembra o cientista político Giovanni Orsina, autor de La democrazia del narcisismo. Breve storia dell’antipolitica. “Hoje não há uma ideologia que consiga convencer as pessoas comuns de que um grande futuro as espera. A liderança é molecular e não ocorre através de uma grande corrente, o protagonismo é efêmero e conquistado por outros canais: os cinco minutos de fama. Em uma situação assim, a mediação intelectual é inútil. Uma fratura tão profunda nunca foi vista. Os populistas não têm nenhuma cultura sobre a qual se apoiar e os intelectuais gritam ao vento. É um problema estrutural que afetará outros países”.

O assassinato de Aldo Moro cometido pelas Brigadas Vermelhas marcou uma mudança de direção que abriu caminho à irrupção paulatina de Silvio Berlusconi e sua estratégia publicitária aplicada à política. O jornalista e escritor Aldo Cazzullo, autor de Giuro che non avrò più fame. L’Italia della ricostruzione, acha que está aí o segundo ponto de inflexão. “A esquerda perdeu a hegemonia cultural desde os tempos de Berlusconi. A cultura de massas já não passava pelos livros, os jornais, a universidade, a academia… Passou pela televisão primeiro, e depois pela rede. E isso explica a hegemonia de Berlusconi e depois do M5S. a Internet determina hoje o tecido cultural nos países em que o populismo governa. A nova fase da hegemonia cultura está aí”, diz.

A direção está clara: as ideias, os livros e a densidade intelectual não bastam. Na era do populismo, procuram-se pensadores, escritores e artistas com envolvimento nas redes sociais: influencers, em suma. Roberto Saviano, com milhões de seguidores, foi por muito tempo uma das poucas vozes de oposição ao Governo da Liga e do M5S. o escritor, sob proteção há uma década por suas revelações sobre a Camorra, contradiz a tese de que não há nada contra o populismo, mas acredita que é um trabalho solitário e arriscado. “Em um momento de confusão e desconcerto como esse em que vivemos, o intelectual se pergunta sobre como pode ser útil e eficaz com sua ação. Vivemos em um clima de constante provocação, um win win para quem governa. Como você reage à ditadura dos tuítes? Grita contra o fascismo ou contra um bando de incompetentes cínicos? Estuda modos mais eficazes e menos frontais? Não podemos esquecer que os intelectuais já não têm uma base política de referência. Já não existe. Após a recusa de se votar o IUS Soli e os acordos com a Líbia para evitar os desembarques de refugiados, o PD se transformou na antessala da Liga. Hoje quem ataca o Governo está sozinho contra todos”, diz em uma longa mensagem de áudio pelo WhatsApp.

No último verão mudanças ocorreram. O eco desse silêncio era ensurdecedor e algumas tribunas se oferecem como alto-falantes. A L’Espresso, revista semanal de referência na Itália dirigida por Marco Damilano, foi a primeira a dar o passo. “Algumas vozes históricas que se opuseram a Berlusconi permaneceram caladas nos últimos tempos. Nós pensamos que precisávamos fazer com que os intelectuais viessem a público. O partido da oposição, hoje, não o faz. Não ocorreram greves gerais, debate sobre os orçamentos… Os industriais são uma oposição que se movimenta por interesse. Se não ouvimos a voz dos intelectuais, o que resta? Essa é a pergunta. De modo que fizemos campanha”, diz por telefone.

A revista encorajou todo um movimento de figuras que começaram a levantar a voz há alguns meses. “O populismo provoca uma certa dificuldade de interpretação aos velhos intelectuais, mas desencadeou uma reação de figuras mais jovens. E é um fenômeno novo, porque não há nada comparável ao M5S no restante da Europa. De fato, esse partido [nascido através de um blog e de uma empresa de comunicação digital] colocou em dificuldade muitos intelectuais que no começo o apoiaram. Já não resta um”, diz Damilano.

Levantar a voz

O romancista gráfico Zerocalcare e Michela Murgia, autora de Istruzioni per diventare fascista, um polêmico livro sobre os ventos da mudança que sopram na Europa, levantaram a voz. Por telefone, ela se enfurece ao ouvir que os intelectuais estão calados. “Não é verdade! Esse papo já deu. Existem fortíssimas vozes intelectuais que se opõem ao Governo. O trabalho que estamos fazendo pode ser visto revisando os ataques feitos pelo perfil de Matteo Salvini. Esvaziamos os bolsos para comprar um barco e pessoas estão recebendo insultos e ameaças de morte. Há uma classe intelectual que reage: não se trata de Gianni Vattimo e Claudio Magris, eles não chegam a tanta gente como nós”, diz citando também a vencedora do último prêmio Strega, Elena Janeczek e o escritor Sandro Veronesi, que em julho publicou uma carta aberta a Saviano e outros autores pedindo para que se envolvessem.

O papel do intelectual, praticamente transformado em ativista, procura comodidade nos tempos populistas. E Veronesi e outros indivíduos, fortemente atacados pelas bases da Liga e M5S, compraram um barco e foram ao Mediterrâneo ajudar no resgate de imigrantes. Para ele, isso serviu para escrever Cani d’Estate, um panfleto, diz, sobre o que passou naqueles dias. “No Novecento a burguesia atacava os intelectuais, mas o povo não. Que agora esse espectro esteja orientado contra nós fez com que nos sentíssemos atacados pessoalmente. Eu sou da velha guarda, tenho 60 anos: são os últimos anos em que a pessoa pode entrar fisicamente nessa luta. Nem todos os intelectuais se movimentaram, é verdade, mas o farão. Lamentavelmente é um caminho sem volta”. Como não voltam os velhos tempos da finezza.

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