segunda-feira, 14 outubro 2019
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Mineira Letícia Sabatella une ativismo social com atuação artística – Almanaque

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“BH foi fundamental. O nascimento de Clara me reintroduziu totalmente na cidade”, lembra Letícia Sabatella, numa conversa de tarde chuvosa na capital federal, em meio à programação do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, que teve a atriz como uma das apresentadoras. 

 

Nascida em Belo Horizonte em 1971, ela saiu com dois anos para Volta Grande, na Zona da Mata, realizando a sua formação profissional no Paraná. Retornou à cidade natal em 2003 para ter a filha Clara, em um parto prematuro, vinculando-se para sempre a uma imagem maternal. 

 

E é justamente a mãe – ou as mães – o tema da entrevista, ao falar da natureza, do feminino, da musicalidade de quem a gerou e da mãe que se tornou. Clara hoje tem 25 anos e, de acordo com Letícia, uma personalidade muito própria. 

 

“Ela ajuda a entender a minha família e a me entender. É como a psicóloga da família. Não é uma continuidade de mim, mas um complemento”, afirma a atriz, que não tem qualquer receio de defender movimentos relacionados à reforma agrária e aos direitos humanos. “Portas se fecham, janelas se abrem”, justifica.

 

Como foi participar, como apresentadora, de um festival de cinema em que muitos dos temas abordados nos filmes estão ligados às causas que você defende, como o feminismo, os direitos humanos, a reforma agrária e o MST?

O que defendo é a valorização de um modo de vida mais ligado à natureza, ao humano, ao orgânico, ao que é mais natural e menos artificial. De ter um lugar onde há uma comunidade que vive, que planta, que tem uma água boa, com seus filhos sendo criados ali pescando e aprendendo coisas de sua própria cultura. Se você sofre a ameaça de tudo aquilo virar um cassino, lugar de lucro e mercado puro, está coisificando, reificando o ser humano. Limitar a questão da terra ao MST é estar reduzindo a questão. O que importa é o modelo de desenvolvimento que também pense em preservar coisas que precisam ser perenes para a gente continuar existindo em qualquer lugar. Se eu estiver morando no Leblon, eu preciso que haja uma Floresta Amazônica, que haja uma água de qualidade, que chova no meu quintal… Para isso, a gente vai precisar cuidar, principalmente quando pensamos ecologicamente, na preservação de um ambiente, em todos os povos que preservam esse meio ambiente. E não num modelo de vida que é predatório simplesmente. Transcende a parede de qualquer movimento específico. O tema abrange sim alguns importantes movimentos, mas a gente está falando de algo que atinge a humanidade, a sobrevivência do planeta. Não podemos pensar seres desprovidos de uma essência humana.

 

“O que acontece ou que pode vir a acontecer comigo, neste aspecto, de perder espaço para uma pessoa que não se posiciona tanto, a gente lida trabalhando mais, fazendo outras coisas. Qualquer coisa que possa me atingir em relação a esse posicionamento ético é um milhão de vezes menor do que está atingindo nossos povos, com o endurecimento dessa intolerância”

 

É interessante observar como você trouxe essa participação para o seu lado profissional e particular, realizando um filme sobre os índios krahôs e montando um sítio que planta alimentos orgânicos em regime de cooperativismo com os empregados.

Todo esse desenvolvimento que você falou vem de colocar a mão na terra e plantar, de ir a uma aldeia indígena e acompanhar uma ocupação dos trabalhadores rurais sem terras. De buscar entender a necessidade do pequeno agricultor, de como a nossa economia é gerada, e muito, por estes agricultores. O melhor alimento que vem é o da agricultura familiar, com o adicional de que se preserva uma cultura, um ambiente em volta. Falando do cerrado: como a gente lida com ele sem destruí-lo! Se formos desmatar tudo e colocar uma monocultura, vamos perder um equilíbrio muito harmônico e delicado. Não tem como acabar com a seca do semi-árido no período sem chuvas. Assim como no Polo Ártico e no Polo Sul, em que verá que tem o tempo de geleira e o tempo de derretimento destas geleiras. Tudo faz parte do respiro, da organicidade daquele lugar, daquele ecossistema, com todos os seus biomas. Temos que manter a cultura dos povos que estão se relacionando com este equilíbrio. Meu contato com os índios krahôs me ensinou muito como lidar com o tempo da seca e o tempo da chuva. O que você cultiva para armazenar em cada momento. Esses povos têm essa tecnologia. Isso tudo me ajudou a entender que política para o desenvolvimento pode ser melhor ou menos predatório. O que atinge o agricultor no interior do país vai atingir o modo de vida de quem mora na orla. É uma conversa que tem existir com muito mais escuta. Como conviver nesta contemporaneidade e introduzir mais consciência, mas equilíbrio e mais saúde para o nosso modo de vida.

 

Como atriz, quando você usa essa voz para defender esses temas, acaba sendo rotulada, tendo um preço a pagar, ainda mais hoje, com essa intolerância. Como você lida com a situação?

Portas se fecham, janelas se abrem. É sempre assim na vida, né? O que acontece ou que pode vir a acontecer comigo, neste aspecto, de perder espaço para uma pessoa que não se posiciona tanto, a gente lida trabalhado mais, fazendo outras coisas. Qualquer coisa que possa me atingir em relação a esse posicionamento ético é um milhão de vezes menor do que está atingindo nossos povos, com o endurecimento dessa intolerância. Diante do que vem acontecendo, de mortes, boicotes e opressões, de perdas de direitos e exclusão, isso é muito mais grave. Não consigo acreditar em uma paz de espírito construída sobre a destruição deste equilíbrio necessário, dessa convivência necessária.

 

HUMBERTO ARAÚJO/DIVULGAÇÃO / N/A

sabatella

 

Você lançou o documentário “Hotxuá” em 2008 e não fez mais projetos pessoais na área de cinema. Neste sentido, você tem se voltado mais para o teatro e a música, não é verdade?

Tenho pensado sim (em projetos para cinema) e isso vai estar acontecendo ao longo do tempo. Eu estou focando muito no trabalho de atriz, autoria de música e teatro, mas a formação e o olhar sensível para captar histórias se estendem a todos os lugares. Já há uma parceria com os filmes que faço, ao entrar como uma atriz muito colaboradora. Já tentei dar uma saidinha e focar na plantação no sítio, mas acabou sendo formação para fazer trabalho. Percebo que a questão da arte e do contar histórias são uma pajelança que não me abandona. Estarão sempre ali, de uma forma ou de outra.

 

“O que defendo é a valorização de um modo de vida mais ligado ao humano, ao orgânico”

 

E o que levou você a investir mais na música neste momento de sua carreira, com a Caravana Tonteria (grupo musical integrado, entre outros artistas, por Fernando Alves Pinto, marido da atriz)?

Não foi de agora, pois cantava no Paraná e tinha uma banda. Era bem intenso. Aprendi com a minha mãe a estar sempre cantando. Ela tem uma voz poderosa, algo meio sagrado, em que faz cantos de trabalho, cantos de transcendência, de superação. Como mãe, você tem que cuidar de uma realidade, com a lida, mesma que seja doméstica, e estar cantando é uma espécie de poder, é uma força de dar conta, uma magia, uma medicina. Vi minha avó costurando, trabalhando e dando conta de criar os filhos depois que ficou viúva e de todas as cargas que tinha que lidar. E ela cantava, de forma solfejada, e inventava melodias, naturalmente, sem perceber. Isso tudo é espaço de transcendência, um canto que faz a vida continuar. A música que faço vem deste lugar. Eu estava ficando com hipotireoidismo de tanto que eu não estava exercendo como deveria. E curou com o exercício deste chacra, deste lugar de fala. Percebo que isso é a cura de muitas gerações. Não é uma coisa auto promocional ou ligada à vaidade. Tiveram muitas mulheres que não puderam falar, que não puderam ocupar um espaço mais amplo. Mulheres anteriores que realmente foram confinadas, domesticadas, mas são de uma potência, de um sonho… E sonho se realiza, não tem jeito. Você não prende, não mata, não algema. Sou de uma geração que realizou o sonho, em muitos aspectos.

 

Como essas relações familiares moldaram o seu lado feminista?

A família de minha mãe é de uma cultura muito forte, assim como a de meu pai. Foram importantíssimos para mim. Do lado de minha mãe, havia um bloco de Carnaval de rua em Itajubá e, todas as vezes, havia um encontro de mulheres costurando e cantando numa das casas, enquanto a gente ia vestindo as fantasias. Elas costuravam o sonho, alinhavam esse sonho. Mas ainda assim era uma cultura do interior, em que a menina tem que casar. Sim, a construção do mundo além está muito nas mãos das mulheres. Quando a gente fala do feminino, a gente fala do espaço criativo, acolhedor, que não é só pragmático, não é só de sobrevivência. Meu pai cantava também, mas devo à minha mãe ter me apresentado as músicas da MPB. Depois fui conhecer Toquinho, Chico (Buarque), Mercedes Sosa, mas antes eu ouvia a voz dela. A minha relação com essas músicas é muito afetiva. São a minha história.

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