terça-feira, 22 outubro 2019
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Luisa Dörr e a conexão íntima pela fotografia | Opinião

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O clichê do fotógrafo branco ocidental que desbrava o exótico e as guerras em busca de grandes imagens parece estar em franca transformação no jornalismo global. A edição deste ano (referente às imagens feitas em 2018) da maior premiação do fotojornalismo internacional, o World Press Photo (WPP), parece apontar para uma transição profunda na cultura midiática que valoriza as narrativas visuais, que se debruçam sobre histórias de indivíduos para além do hardnews. Inúmeros trabalhos feitos de maneira cuidadosa e imersiva por fotógrafas contribuem e dão fôlego para esta mudança. “No ano passado apenas 16% dos trabalhos submetidos à premiação eram de mulheres. Este ano este número subiu para 19%”, conta a fotógrafa brasileira baseada no Oriente Médio Alice Martins, que integrou o júri desse concurso nos últimos dois anos.

Os números consolidam a tendência: 32% dos trabalhos premiados este ano foram feitos por fotógrafas. Luisa Dörr, 29 anos, é a primeira brasileira nomeada vencedora do prêmio. “A maior parte dos trabalhos premiados no WPP são comissionados para fotógrafos renomados dos grandes veículos e agências e, nesse sentido, fico feliz de ter ganho porque meu projeto Falleras surgiu no meio de uma viagem familiar, de forma despretensiosa”, revela a fotógrafa, que acompanhou a tradicional festa popular espanhola “Fallas de Valencia” e produziu retratos intimistas das mulheres em suas vestimentas tradicionais.

Luisa pensa a fotografia e o fotojornalismo dentro de uma perspectiva contemporânea, que privilegia as histórias e trajetórias individuais; e em segundo plano as grandes notícias do hardnews. Trata-se de uma postura alternativa que dialoga com os novos anseios do público na busca por uma conexão íntima entre seres humanos em tempos de crescente processo de individualismo na era da globalização. “Me sinto mais cômoda contando histórias sobre mulheres. Gosto de retratos honestos e entendo melhor o universo feminino que o masculino”, esclarece a fotógrafa. Seu comprometimento com as histórias transcende a crise econômica e de audiência enfrentada pela imprensa escrita nos últimos anos. “Seria difícil alguém bancar um pitch se eu aplicasse para essa história (Falleras), então eu vou por minha conta quando posso porque tenho vontade de fazer a história. Sinto que é legal e quero contar essa história, depois tento vendê-la para algum meio e assim recupero parte da grana”, conta.

Se, no Brasil, boa parte dos fotojornalistas gastam tempo e energia reclamando, com razão, das más condições de trabalho ou da precarização monetária da profissão, Dörr evidencia a força motriz de ser fotógrafa(o): a busca pessoal por contar histórias, por meio das imagens, independente das condições sócio-econômicas que nos cercam. Ela, como tantos outros e outras, rompe com a lógica de ser pautado(a) pelos grandes veículos e coloca a(o) fotógrafa(o) como protagonista e autor.a das próprias histórias e, neste processo, inverte a relação entre fotógrafo(a) e jornal ao pautar a própria imprensa. “Entendo que muitos fotógrafos estão desesperados com essa falta de lugares para publicar. A falta de oportunidades e meios precisa ser recompensada com o talento do fotógrafo em achar pautas interessantes e autorais, mas este é um processo muito cansativo em que muitos vão ficar pelo caminho”, reflete. Para Cris Veit, “o WPP está fazendo a lição de casa, procurando sair do perfil do homem branco dos países ricos cobrindo as grandes histórias. Este ano, além de um número maior de mulheres inscritas, temos mais temas que retratam realidades femininas entre os indicados”.

Romper com a tradição e os padrões histórica e socialmente construídos não é um processo simples não só para as artes, porém é absolutamente necessário para sua reinvenção e resiliência. Nesse sentido, alterar a relação: imprensa pauta fotógrafo(a) para fotógrafa(o) pauta imprensa nos coloca como autores(as) e pesquisadores(as) donos(as) do próprio desejo e soberanos(as) na imersão das histórias. Luisa, há muito, adotou essa lógica. “Um pianista profissional treina oito horas por dia, a maioria dos fotógrafos brasileiros só pega na câmera quando tem um trabalho pago, temos que viver a fotografia na sua plenitude, diariamente”, pondera Dörr.

Alice Martins, fotógrafa baseada no Oriente Médio, compartilha esse mesmo ponto de vista e acrescenta: “O nível de profissionalismo do fotojornalismo no Brasil está muito distante dos veículos internacionais. Depois de 2013 me parece que surgiu uma nova geração super talentosa no Brasil e que merece um espaço para crescer e aprender mais, mas não vejo espaço para eles. Não existe espaço para investimento no fotojornalismo no Brasil”. Luisa vai mais adiante: “Percebo que no Brasil os editores só costumam chamar os conhecidos, raramente abrem espaço para novos fotógrafos(as). Trabalham sempre com os mesmos, não arriscam. Só grandes editores conseguem realmente escolher alguém pelo seu trabalho, e não só pelo nome. A mudança começa por aí”.

Como reverter essa mentalidade que permeia as relações entre fotógrafos(as) e editores(as) no Brasil? Essa é a grande pergunta de um milhão. Mas é preciso deixar as reclamações e os egos na porta de entrada da roda de conversa. “Será que precisamos sempre escolher os clichês? Cenas de ação? Ou queremos mostrar que o fotojornalismo pode e deve ser feito de uma maneira mais cuidadosa. Sentimos, quando vemos as fotos, qual foi a atitude do fotógrafo na cena. Se buscaram aquele momento de quietude em meio ao caos. Não quero generalizar, mas muitas vezes são as mulheres que têm essa tendência mais cuidadosa”, pontua Alice. Luisa Dörr destaca um aspecto importante: “Acho que nós mulheres recebemos menos propostas de trabalho, não querem enviar mulheres para locais perigosos. Subestimam o poder da mulher. O reconhecimento do prêmio é fundamental para todos ficarem com vontade de aplicar e fazer seus trabalhos autorais”.

Se, por um lado, os números e as estatísticas escancaram o desequilíbrio e a diferença nas relações dos meios de comunicação com fotojornalistas homens e mulheres; por outro, é possível notar um crescente e poderoso movimento de fotógrafas com trabalhos consistentes e imersivos capazes de narrar a história de uma maneira sublime. Para Alice: “Mulheres são a maioria nos cursos de fotojornalismo, mas são a minoria quando se trata de assignments”. A organização Woman Photograph aponta que no último ano, em média, apenas 12% das fotos nas primeiras páginas dos principais jornais globais foram feitas por fotógrafas. Há um longo caminho a ser percorrido para equilibrar as relações de gênero, mas também para ressignificar, no Brasil, a dinâmica entre autores(as), editores(as) e público. “Os meios daqui não cuidam das pessoas criativas. Sempre precisa partir de um meio estrangeiro”, desabafa Luisa. Que a merecida premiação de Luisa Dörr contribua para chacoalhar conceitos arcaicos dos meios de comunicação brasileiros e projete a sociedade para um futuro mais democrático entre fotojornalistas, editores.as e leitores.as. Viva o trabalho autoral!

Mais em:

Luisa Dörr: http://luisadorr.com/

World Press Photo: https://www.worldpressphoto.org/news/2019/contests-nominees/37814

Alice Martins: http://www.alicemartins.com/

Cristina Veit: http://www.crisveit.com/

Victor Moriyama é fotógrafo e colabora com os mais importantes jornais do mundo. (www.victormoriyama.com.br)

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