quarta-feira, 17 julho 2019
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Desastre em Brumadinho: A dor da espera dos familiares por informações depois da enxurrada de lama | Brasil

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Dor e impotência são dois sentimentos que afloram em Brumadinho, a pequena cidade mineira de 40.000 habitantes, que se desespera com a matemática mórbida de contar as vítimas do rompimento da barragem de Feijão, da mineradora Vale. Já há nove nomes confirmados de funcionários da empresa retirados sem vida dos escombros provocados pela lama, mas é seguro que esse número subirá. Ao longo do dia, entretanto, a esperança tomou conta com o anúncio de que algumas pessoas foram encontradas com vida, mas ainda não havia confirmação oficial. Os nomes ainda estão sendo levantados. Paulo Aniceto é um dos que esperam encontrar o filho. Ele espera informações sobre Everton Guilherme Gomes, de 20 anos, que desapareceu após o rompimento da barragem. Ele trabalhava na área de engenharia em uma terceirizada da Vale. O último contato com o filho foi através do WhatsApp às 12h18 de sexta-feira. Aniceto não sabe quantas vezes já olhou para a última mensagem que trocaram.

Na manhã deste sábado, tentou mais dois contatos com o filho. “Ainda tenho esperanças de encontrar meu filho. Tem que ter fé”, diz emocionado. “Estamos passando para os bombeiros a geolocalização do celular dele, temos que acreditar”. Gomes começou a trabalhar para a Vale há menos de um mês e ficava na maioria do tempo na cidade de Itabirito, perto dali. “ Foi a primeira vez que ele veio na mina do Feijão”, se angustiava o pai.

O presidente Jair Bolsonaro sobrevoou a área ao lado do general Heleno, ministro do Gabinete Institucional, além do ministro da Defesa, Fernando Azevedo e Silva, e o ministro da Secretaria de Governo, general Santos Cruz. “Difícil ficar diante de todo esse cenário e não se emocionar. Faremos o que estiver ao nosso alcance para atender as vítimas, minimizar danos, apurar os fatos, cobrar justiça e prevenir novas tragédias como a de Mariana e Brumadinho, para o bem dos brasileiros e do meio ambiente”, tuitou Bolsonaro. O Governador de Minas, Romeu Zema, declarou estado de calamidade pública na área atingida pelo rompimento da barragem.

Horas antes, Carlos Diniz, funcionário há 20 anos da mineradora, perguntava incrédulo sobre o trágico episódio que pode ter vitimado outros colegas, além da sua mulher, Lenilda. “Se tinha chance de alguma coisa acontecer, por que não tiraram as pessoas de lá?”, pergunta com olhos marejados. Desde ontem, ele procura informações sobre Lenilda, que trabalha no refeitório da mina Feijão. “O nosso sofrimento agora será para sempre”.

O restaurante e um prédio administrativo foram soterrados pela lama. Informações iniciais apontavam que entre a sexta e as primeiras horas deste sábado mais de 180 pessoas foram encontradas vivas. Mais cedo, a Defesa Civil havia informado que 354 pessoas que estavam trabalhando na Vale na hora do acidente ainda não haviam feito contato. Há dúvidas, ainda, sobre moradores que viviam no entorno da mina Feijão. Uma pousada na região foi atingida. Houve informações ainda de um ônibus atingido pela lama, assim como casas no bairro de Ferteco. Por ora, as equipes do Governo organizam as informações a partir das buscas dos familiares. Na porta da Universidade Asa de Brumadinho, onde foi criado um centro de operações para gerenciar a crise que se instalou depois do rompimento da Barragem, o clima é de muita tristeza e apreensão com familiares de desaparecidos buscando informações.

Diniz trabalha na área de manutenção da Vale e só entraria no trabalho às 16h. “A última vez que vi minha mulher foi de manhã antes dela sair para a mina. Minhas filhas não param de perguntar pela mãe. Colegas me contaram que, na hora do rompimento ela saiu correndo, mas a lama pegou as pernas dela”, conta. O clamor por justiça toma conta dele. “A empresa não pode sair impune, tenho orgulho de trabalhar na Vale, mas as pessoas precisam pagar por isso”, diz.

Segundo Diniz, sempre houve medo que algo acontecesse na barragem. Embora a empresa alegue que desde a tragédia do rompimento da barragem de Mariana – quando 19 pessoas morreram – tenha inserido procedimentos para reforçar a segurança dos funcionários e do entorno, o resultado mostrou-se nulo nesta sexta. Um desses procedimentos, por exemplo, o sistema de alarme para avisar eventuais riscos, parece não ter funcionado. “Conversei com muitas pessoas e ninguém escutou a sirene de alarme”, conta o funcionário.

Com os olhos inchados de chorar, Bianca procurava com as autoridades do local informações sobre o marido Fauler Douglas que trabalhava numa terceirizada da Vale. Ela não encontra o nome do marido em nenhuma das listas de nomes disponibilizadas até agora pelo hospital que está atendendo as vítimas, a empresa e o governo de Minas.

Maria Cristiane, técnica de enfermagem, funcionária da Vale tentava acalmá-la. Desde ontem Cristiane não consegue dormir pensando nos colegas que estão desaparecidos. Ela só entraria no trabalho às 19h. “Como que coloca a cabeça no travesseiro. As pessoas que trabalhavam na medicina comigo e estavam na hora da tragédia eu já perdi as esperanças. O lugar foi um dos primeiros a ser atingidos pela lama”, diz.

Nesta manhã uma varredura está sendo feita pelo rio Paraopeba, que abastece a região, em busca de sobreviventes.

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