terça-feira, 18 junho 2019
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Brett Kavanaugh: Uma elite norte-americana criada à base de excessos, álcool e machismo | Internacional

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Respira-se privilégio dentro desta escola que se espalha por 38 hectares de grama perfeitamente cortada e conta, entre outras instalações, com um campo de golfe de nove buracos, ginásio de basquete, quatro quadras esportivas para treinos, campos de beisebol, de lacrosse, de futebol e de futebol americano, assim como uma pista de atletismo coberta, piscina olímpica, zona de trampolins e um estúdio de gravação profissional. Na escola secundária Georgetown Preparatory, enraizada na tradição jesuíta, cada aula começa com uma oração, e a matrícula custa 150.000 reais, ou quase o dobro para os internos. Situada numa parte de Maryland que faz divisa com Washington DC, uma das mais ricas do país, a instituição, como recordam os cartazes distribuídos por todo o campus, forma “homens para os outros desde 1789”.

Aqui passou sua adolescência Brett Kavanaugh, o homem indicado por Donald Trump para integrar a Suprema Corte, e que na sexta-feira, entre lágrimas e caretas de raiva, compartilhou com todo o país suas intimidades daquela época. O que aconteceu ou não aconteceu numa noite do verão de 1982, em que Christine Blasey Ford acusa o juiz de ter tentado estuprá-la, continua monopolizando o debate nacional.

Outra mulher, Deborah Ramírez, acusa o juiz de tê-la agredido sexualmente na universidade de Yale, onde ambos estudaram. E uma terceira, Julie Swetnick, de ter estado presente quando a estupraram em uma festa do ensino médio. A elas se soma uma denúncia anônima. Todas têm em comum um contexto de consumo de álcool. As acusações contra Kavanaugh, que ele diz serem parte de uma campanha de difamação orquestrada pelos democratas, voltaram novamente os holofotes para a cultura de excessos e de abuso às mulheres nas exclusivas instituições que formam a elite norte-americana.

“O modelo do Doutor Jeckyll e Mister Hyde é algo muito comum nesses ambientes”, conta Terry MacMullan, professor de Filosofia da Eastern University, de Washington, que se formou na Georgetown Preparatory em 1990, sete depois de Kavanaugh. “Meninos estudiosos, educados, pios na igreja… Mas você tocava um botão na cabeça deles e, quando saíam à noite, viravam outras pessoas. MacMullan aponta dois fatores que podem explicar essa espécie de “psicose”. “Lá, as paixões eram exageradamente altas”, diz. “No âmbito acadêmico, todo mundo se esforçava ao máximo. Não queria um ‘bom’, queria a melhor nota. No campo esportivo, igual. Era um desejo constante de excelência. E, ao desaparecer a pressão, isso se replicava em comportamentos extremos quando você estava numa festa. Não valia beber algumas cervejas, era preciso beber até vomitar e depois continuar bebendo. Era tudo no limite, e isso levava a gente a comportamentos muito extremos e destrutivos.”

O segundo fator tem a ver com uma determinada concepção das mulheres. “Pesava uma ideia arraigada no catolicismo de que as mulheres ou são belas e perfeitas, como a virgem Maria, ou são Jezebel”, afirma. “Não havia garotas no colégio, só falávamos delas, eram algo mítico. Negávamos a elas a oportunidade de serem pessoas. Eram só o objeto dos nossos sentimentos, dos nossos desejos.”

MacMullan – que ressalva que “não era uma cultura monolítica” e que muita coisa mudou em 1986, quando foi elevada a idade mínima de consumo de álcool – é um dos 300 ex-alunos de escolas privadas elitistas da região que assinaram uma carta aberta a Ford. “Acreditamos em você”, escrevem. “Escutamos sua história, e não surpreendeu a nenhum de nós. É a história de nossas vidas e das vidas dos nossos amigos.”

No meio do reboliço, o diretor do colégio, reverendo James R. Van Dyke, escreveu uma carta à comunidade escolar admitindo que é hora de “falar honesta e francamente” com os alunos “sobre o respeito aos outros, especialmente às mulheres e a outras pessoas marginalizadas”. É hora, acrescentou, de promover “uma compreensão saudável da masculinidade, em contraste com muitos dos modelos culturais e caricaturas que veem”.

A Georgetown Preparatory podia se vangloriar na era Trump. O homem que o presidente pôs à frente do Federal Reserve, Jerome Powell, é um antigo aluno. Também serão ex-alunos, se o plenário do Senado aprovar a nomeação de Kavanaugh, dois dos nove juízes da Suprema Corte. E quatro deles são formados em Yale, a prestigiosa universidade do Estado de Connecticut em cuja faculdade de Direito Kavanaugh ingressou em 1983.

As fraternidades estudantis são incubadoras de ambições, e Kavanaugh se uniu à Delta Kappa Epsilon (DKE), fundada em 1844, entre cujos ilustres membros se encontram George Bush pai e filho. Os irmãos da fraternidade são conhecidos como “meat heads” (cabeças de carne), comenta Dan, que prefere não dar seu sobrenome e que estudou em Yale antes que surgisse o movimento contra os abusos sexuais nas universidades. “Eram chamados assim porque eram um bando de brutos”, explica. “As alunas tinham medo de irem às suas festas. Bebia-se muito.”

A fraternidade hoje está praticamente desativada. Uma de suas duas propriedades, situada a menos de cinco minutos a pé da faculdade de Direito, acaba de ser transformada em residência estudantil. “Venderam-na antes do verão [norte-americano]”, diz um inquilino. A fraternidade já não anuncia mais atividades. No campus, dizem que isso se deve às várias denúncias contra seus membros. A DKE já foi alvo de uma sanção da universidade, que cortou seus vínculos com ela durante cinco anos, esperando uma mudança de conduta e de cultura.

O juiz chegou a Yale 15 anos depois da permissão do acesso das mulheres à faculdade. “Tudo é muito diferente agora”, afirma Joyce Maynard, que se matriculou pela primeira vez em Yale em 1971, mas precisou abandonar o curso no segundo ano. Aos 64 anos voltou a tentá-lo. O que viu na sexta-feira na televisão, afirma, “representa o passado”. “Agora metade dos estudantes são mulheres e existe muita diversidade”, diz. “Isso contribuirá para que Yale deixe de ser vista como uma universidade somente de homens e reservada às elites”.

Uma chaga espalhada

P. G / S. P.

Em uma pesquisa encomendada por 27 universidades que constituem a elite da educação superior norte-americana e respondida por mais de 1.500 alunas, 26% das estudantes declararam ter sido vítimas de abusos sexuais pela força, ameaças e incapacitação (com drogas e álcool). E 16,5% afirmou ter sido estuprada. São números mais altos do que os registrados no mesmo estudo há dois anos (23% e 10%, respectivamente).

Se forem incluídas as tentativas de agressão, como a que Christine Blasey Ford denuncia, uma em cada três estudantes que participaram da pesquisa afirmou ter sido vítima em algum momento de seu curso. Em relação ao assédio sexual, entendido como um “comportamento que interfere no rendimento acadêmico da vítima e cria um entorno de trabalho intimidatório”, 62% diz tê-lo sofrido em algum momento do curso.

A porcentagem de vítimas que procuram as autoridades universitárias para denunciar os abusos é baixa, de acordo com a pesquisa realizada pela empresa Westat. No caso do estupro é de 25,5%, mas só é denunciado por uma pequena parte das vítimas com toques com força física (7%) e incapacitação (5%). A principal razão alegada para não denunciar é que não consideravam que era grave o suficiente.

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