quarta-feira, 26 junho 2019
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Argentina: Argentina no fundo do poço, outra vez | Internacional

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Depois chegar ao fundo do poço, se supõe que não se pode piorar. Mas há exceções. A Argentina, por exemplo, pediu ajuda ao Fundo Monetário Internacional em junho. Aquela solução definitiva durou três meses. Agora voltou a pedir ajuda e está diante de uma perspectiva desalentadora: o resgate concedido pelo FMI implica em agravar a recessão e suportar uma duríssima purgação, a enésima, com a maior dívida de sua história. O paradoxo é que com este sacrifício supostamente final, o presidente Mauricio Macri espera ser reeleito no ano que vem.

Nada é impossível em um país tão excessivo quanto a Argentina. Macri chegou à presidência com a promessa de colocar ordem nas contas públicas e encaminhá-las para um crescimento mais ou menos sustentado. No terceiro ano de mandato, seu Governo registra uma inflação anual de mais de 40%, uma brutal desvalorização do peso em relação ao dólar e uma queda na produção próxima de 2,4%. De acordo com estimativas oficiais, 27 em cada 100 cidadãos vivem na pobreza e, com o novo ajuste, que implica reduzir a zero o déficit orçamentário, o drama aumentará nos próximos meses. O saldo é muito ruim. Mas isso pode ser relativizado. De acordo com o ministro da Fazenda, Nicolás Dujovne, o auxílio concedido pelo FMI “clareia o panorama” e mostra que “os grandes países do mundo” apoiam a gestão governamental.

O termômetro é sempre o dólar. Macri contou com um professor de Harvard, Federico Sturzenegger (secretário de Política Econômica antes da catástrofe financeira de 2001), como presidente do Banco Central, com a missão de controlar a inflação e manter a moeda estável. Sturzenegger ocupou o cargo de 2015 até junho deste ano, quando renunciou e assumiu o fracasso: o dólar havia passado de 18 a 28 pesos. Chegou ao Banco Central um reputado financista, Luis Caputo, “o Messi dos mercados de câmbio”, que se foi batendo a porta na terça-feira, exatamente quando Macri negociava com o FMI e com o país em greve geral: em três meses, o dólar havia atingido a marca de 39 pesos. O novo presidente, Guido Sandleris, admite que o Banco Central fez coisas erradas e promete uma política monetária restritiva (retirando pesos do mercado) para conter a desvalorização e o aumento dos preços. Em seu primeiro dia no cargo, ontem, o dólar superou os 40 pesos.

A situação argentina (recessão combinada com inflação alta) é muito semelhante à dos Estados Unidos e da Europa Ocidental nos anos setenta, quando o consenso socialdemocrata vigente desde 1945 afundou. Na época foram aplicadas, com resultados discutíveis, as fórmulas do economista ultraliberal Milton Friedman, baseadas em impedir a todo custo o crescimento da massa monetária. É o que Sandleris propõe. A Argentina joga tudo literalmente com a aposta monetarista. Porque o que quer evitar com o recurso ao Fundo Monetário é repetir a suspensão de pagamentos de 2001. Mas os 57,1 bilhões de dólares emprestados pelo FMI devem ser devolvidos em dólares, obviamente. E se o peso continuar caindo, a dívida será cada vez mais alta e pode se tornar impagável.

Por enquanto, o país conseguiu uma trégua. Há dólares para pagar a dívida externa até 2020. Essa falta de preocupação joga a favor de Macri e de seus planos de manter a presidência. Guido Sandleris diz que se a desvalorização da moeda continuar e o dólar chegar a 44 pesos, fortalecerá a divisa argentina com vendas de dólares à razão de 150 milhões por dia: isso é o máximo que o FMI permite, para que a Argentina não gaste o empréstimo na manutenção artificial da cotação do peso. O problema é que, para os mercados financeiros, 150 milhões de dólares por dia é uma ninharia. Portanto, a única possibilidade real de salvação é que tanto os próprios argentinos quanto os investidores internacionais tenham fé e decidam que desta vez, ao contrário das anteriores, as coisas sairão bem.

Na semana passada, uma jovem vestida de modo muito modesto foi a uma casa de câmbio para trocar um maço de pesos em notas de pequeno valor por algumas notas de um dólar. Ela preferiu ter suas magras economias em moeda norte-americana. Esta jovem vai mudar de ideia? Isso ainda está por ver.

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