terça-feira, 22 outubro 2019
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Alexandria Ocasio-Cortez, o fenômeno da nova esquerda em Washington | Internacional

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O gabinete de Alexandria Ocasio-Cortez é inconfundível no final de um dos longos corredores do edifício Cannon do Congresso. Um mural de post-it coloridos dos dois lados da porta quebra a harmonia na fileira de escritórios uniformes pelos quais é preciso passar para se chegar ao seu: o de Andy Levin, representante por Michigan; o de David Scott, pela Geórgia; e o de John Ractliffe, pelo Texas. Nenhum deles possui também diante de sua porta um grupo de garotas em viagem de estudos que na quarta-feira monta guarda para ver em pessoa a inquilina do número 229 como quem aguarda Madonna na saída de um show. “Está ali… A-O-C!”, grita de repente uma das jovens. “Amamos você!”, exclama outra. De fato, como se fosse uma estrela pop, Ocasio-Cortez saiu por uma porta secundária. Ao ouvir suas iniciais, já transformadas em uma espécie de marca pessoal, volta e cumprimenta com um sorriso do tamanho do Capitólio.

Desde sua estreia na Câmara de Representantes em 3 de janeiro, Alexandria Ocasio-Cortez colocou Washington de pernas para o ar. Transforma tudo o que toca em ouro midiático, arrasta hordas de millenials e colocou as propostas mais esquerdistas do espectro ideológico americano no centro de debate. Para entender a magnitude do fenômeno que significa essa mulher de 29 anos, a mais jovem da história a chegar ao Congresso norte-americano, é preciso lembrar que há pouco mais de um ano trabalhava em um restaurante em Nova York. Sua vitória nas primárias do ano passado, contra um veterano de renome do Partido Democrata, foi um feito extraordinário. Representante de um distrito muito progressista da cidade, Queen-Bronx, tinha garantida a eleição em novembro. Agora, de sua cadeira no Congresso, deixou de ser uma história curiosa.

Em um país que ainda associa o termo socialismo às ditaduras comunistas, Ocasio se diz socialista democrata, da mesma forma que Bernie Sanders, e pede imposto de até 70% aos rendimentos superiores a 10 milhões de dólares, proposta que foi elogiada por economistas de viés progressista como o Nobel Paul Krugman. E com o debate migratório no olho do furacão, pede o desmantelamento da polícia de fronteira (ICE, na sigla em inglês), medida que depois foi apoiada por outros democratas, como a pré-candidata presidencial Kirsten Gillibrand. Tudo, de um monumental alto-falante.

Seu primeiro discurso no plenário da Câmara, de quatro minutos, bateu os recordes de audiência da história do C-SPAN, o canal que cobre a atividade parlamentar. Em apenas 12 horas foi visto por um milhão de pessoas. Mas isso não é nada comparado com o que aconteceu semanas depois. Seu interrogatório em uma audiência sobre o financiamento de campanhas, em que expôs todos os buracos pelos quais pode entrar a corrupção de políticos e grandes empresas, destroçou parâmetros na Internet com 37 milhões de visualizações.

Ela se multiplica nas redes sociais: criou uma audiência fiel no Instagram, onde conta o dia a dia menos conhecido do Congresso, e seu volume de interações no Twitter supera o de qualquer grande veículo de mídia e qualquer outra figura democrata, incluindo Barack Obama, e republicana, com a exceção de Trump, o único que a supera, de acordo com um relatório do site Axios sobre um período que vai de 17 de dezembro a 17 de janeiro.

A porta do gabinete da congressista Ocasio-Cortez no Capitólio, em Washington.


A porta do gabinete da congressista Ocasio-Cortez no Capitólio, em Washington.

“Ela produz uma espécie de efeito Oprah Winfrey. Oprah tem um status de celebridade que faz com que quando apresenta alguma coisa ao público, um novo creme, um novo livro, novos tênis… Todo mundo se interessa, aquilo se transforma em uma febre. A política é diferente, mas está acontecendo algo parecido. Ocasio fala de coisas que provavelmente já foram ditas antes, mas não haviam conseguido prender a atenção das pessoas dessa forma”, diz por telefone Stephanie Kelton, ex-economista-chefe dos democratas para o Comitê Orçamentário e agora professora de políticas públicas na Stony Brook University.

“Ela é bem-sucedida por uma combinação de fatores. É muito dinâmica, tem senso de humor e é, principalmente, muito autêntica, chega à política sem ter ficado anos se preparando para isso e tem esse olhar fresco sobre o que acontece em Washington. Viu o que ela acabou de escrever sobre os indigentes?”, diz Kelton. Na quarta-feira a congressista publicou a foto de uma fila de pessoas sem teto em um corredor do Congresso denunciando o que é uma velha prática na capital: os lobistas pagam os pobres para que façam fila por eles nos comitês e audiências e assim ter um lugar assegurado na sala. “Choque nem de longe chega a descrever isso”, disse.

Uma pergunta feita frequentemente por seus críticos é quanto essa fanfarronice se traduzirá em legislação. Não é praxe esperar muito de um congressista novato, menos ainda em seus primeiros meses na ativa, mas tudo o que envolve a jovem e atraente Ocasio é excessivo, incluindo as expectativas. O que parece evidente é sua capacidade de agitar o debate político e obrigar o Partido Democrata a se perguntar — mais uma vez — seu ser ou não ser. Se o caminho da vitória à Casa Branca em 2020 passa por conseguir amarrar o centro ou pela guinada à esquerda.

Green New Deal contra os moderados

Um grande exemplo é o Green New Deal, um ambicioso plano de meio ambiente de nome rooseveltiano apresentado em 7 de fevereiro com um senador por Massachusetts. Como forma de resolução, pretende transformar a economia de forma a permitir 100% de energias limpas até 2050. O lançamento causou ceticismo entre alguns democratas. A líder no Congresso, Nancy Pelosi, mostrou desdém em uma entrevista ao site Politico, ainda que depois tenha se retratado. “Será uma das muitas propostas que receberemos”, afirmou. “O green dream [sonho verde] ou seja lá como se chama, ninguém sabe o que é, mas tentarão alcançá-lo, não?”. De fato, Ocasio-Cortez não faz parte do Comitê sobre a crise climática que Pelosi apresentou no mesmo dia do Green New Deal. Por outro lado, ela é membro de um dos comitês mais poderosos do Capitólio, o de serviços financeiros, que aborda a regulamentação bancária e a independência da do Federal Reserve.

Outro caso que colocou as diferentes sensibilidades dos democratas frente a frente tem a ver com o gigante Amazon, que acaba de cancelar seus planos de criar uma nova sede em Nova York, o que teria significado 25.000 vagas de emprego, pela oposição dos políticos locais, com Ocasio na liderança, às vantagens fiscais que exigia.

Para a rede conservadora Fox, a jovem já se transformou no grande anátema. Entre os democratas, os mais à esquerda a adoram e os moderados temem seus efeitos. O que todos parecem concordar é que ela não está onde está por acaso. Nessa semana, pelas regras do Congresso, precisou retirar os post-it coloridos de um dos lados da porta. Deixou os do outro. Uma das mensagens, com letra redonda, diz: “Continue lutando. Acreditamos no que você faz”.

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