terça-feira, 21 maio 2019
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‘Valentine’s Day’ muito além da monogamia | Estilo

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Quando Giazú Enciso, doutora em Psicologia Social especializada em afetos e feminismo, escrevia em 2001 sua tese sobre poliamor, as pessoas costumavam olhá-la com perplexidade e lhe perguntar o que era aquilo. Bem, explicava ela, a verdade é que o assunto tampouco era algo tão novo, embora o termo fosse. “Os primeiros dados sobre não monogamia vêm do Paleolítico. Nos anos sessenta e setenta já havia artigos sobre a prática de ter mais de uma relação sexual ou romântica de forma consentida. Nos oitenta, estava na moda ser swinger e a troca de casais. Mas a primeira vez que se usou a palavra poliamor foi em 1990, em um artigo. Naquela década também se falou muito de prazer feminino, e The Ethical Slut, o livro de referência de Dossie Easton e Janet Hardy, foi publicado em 1997”, recorda Enciso quase 20 anos depois de publicar seu trabalho, o primeiro em espanhol sobre o tema.

Morning Glory Zell-Ravenheart foi quem cunhou a palavra poliamor em um artigo, e pouco depois voltou a empregá-la numa convenção neopagã. O que buscava definir então não era algo tão radicalmente novo — relacionamentos amorosos múltiplos têm uma história longa e diversificada —, mas, daquelas origens neo-hippies e alternativas, passou-se a um cenário francamente diferente. O poliamor deixou as margens para ocupar o centro de um bom número de debates e estudos. O mundo acadêmico e, em particular, a sociologia, a psicologia e a filosofia vivem há 10 anos um boom de publicações sobre alternativas à monogamia. E, nas ciências naturais, a discussão sobre as tendências naturais do ser humano vem de longe. Algumas pesquisas afirmam que a exclusividade sexual não é inata, e que contribuíram para ela fatores como as doenças sexualmente transmissíveis e a necessidade de estreitar a cooperação e as relações de parentesco. Neste mês, um estudo identificou os genes relacionados à tendência monogâmica em certos animais, mas a dificuldade de examinar as interações entre cultura e biologia torna impossível oferecer respostas definitivas à pergunta de se os humanos são monogâmicos por natureza, em relações como as que se costuma celebrar em dias como o Valentine’s Day.

‘Valentine’s Day’ muito além da monogamia


Historicamente, a institucionalização dessa exclusividade se deu no matrimônio, mas o que hoje muitos consideram o ápice de uma relação costumava ser apenas um instrumento para assegurar propriedades, estabilidade financeira e boas conexões. O amor era uma alienação temporária ou um ingrediente que podia ajudar a suportar uma união pela vida toda. No Ocidente, o casamento começou a ser visto como um vínculo resultante de uma relação romântica a partir do século XIX, quando se começou a se falar em pôr o coração à frente do bolso. Desde então, a lista do que um casal deve propiciar, numa relação longa e exclusiva, só cresceu: deve dar estabilidade, mas também novidade; segurança, mas também mistério. O cônjuge deve ser amante, âncora, oferecer a melhor amizade e conselhos, além de, se for o caso, apoiar ao máximo na criação dos filhos. E, sobretudo, deve encarnar o amor verdadeiro, um sentimento legendário e apaixonado, do qual não se duvida e que nunca se apaga. O discurso está presente em todos os filmes, em todas as canções, gravado a fogo em nosso cérebro. Coral Herrera, especialista em teoria de gênero, o descreve como “a utopia coletiva”. E acrescenta que o sonho difundido é “encontrar a nossa meia laranja para nos encerrarmos em uma bolha de amor romântico”.

Este suposto amor, tão único, exige renúncias: principalmente renúncia ao sexo com outras pessoas. Pode haver outras relações, mas “só uma tem o apoio social, só uma está certificada como correta, apropriada”, aponta a educadora e ativista LGTBQI (lésbicas, gays, transexuais, bissexuais, queer e intersexuais) Brigitte Vassalo em seu livro Pensamiento Monógamo, Terror Poliamoroso. “É um compromisso simbólico, o pagamento que se faz para adquirir essa legitimidade: eu não irei para a cama com ninguém mais, mas, em troca, nossa relação será superior às demais”.

Hoje, muitas vozes defendem que os modelos estão mudando. Em outubro passado, na Universidade Carlos III, em Madri, dezenas de jovens participavam de uma conferência intitulada Longe da Monogamia. Debateu-se sobre como abrir um namoro de forma ética, sobre as relações não hierárquicas, sobre se o poliamor é, por definição, feminista. Ao final, várias moças se aproximaram de Noemí Casquet, uma youtuber com mais de 100.000 seguidores que esmiúça conceitos como o de polidramas (por exemplo, o ciúmes dos meta-amores, os outros pares românticos ou sexuais do seu parceiro).

O mapa da não monogamia


‘Valentine’s Day’ muito além da monogamia





INTERATIVO | Este mapa, inspirado pelo do ativista Franklin Veaux, explica alguns modelos de relações não monogâmicas. Clique na imagem para alargar o mapa e responda a perguntas para ver onde você se localizaria. 

Estaria se abrindo o leque das formas de se relacionar? É complicado dizer se na atualidade há uma maior rejeição à monogamia porque, para começar, é difícil precisar quantas relações não exclusivas existem. As uniões entre mais de duas pessoas em geral não estão regulamentadas, embora haja religiões e países como Marrocos que admitem a poligamia, e recentemente (no Brasil e Colômbia) houve casos nos quais a prática foi aceita. Questões legais à parte, o fato é que há poucas cifras claras sobre relações não monogâmicas, e as poucas disponíveis vêm dos EUA e são díspares. Segundo um relatório de 2016 da revista Journal of Sex & Marital Therapy, uma em cada cinco norte-americanas (20%) dizem manter ou ter mantido uma relação consensual fora do casamento. Outros estudos colocam o percentual nesse país em torno de 4%, equiparando suas dimensões às da população LGTBQI (segundo algumas estatísticas, também muito variáveis).

Pedimos que a mesma pessoa seja ao mesmo tempo amante, amiga e conselheira de criação

O que sim abundam são pistas, indicadores de que o tabu da não monogamia se dilui, de que se fala mais sobre isso hoje em dia. Sobretudo na Internet. Na lista de palavras mais buscadas no Google na categoria relacionamentos em 2017 nos EUA, “poliamor” foi a quarta mais procurada. As redes sociais também são cruciais para que as comunidades que rejeitam a monogamia se encontrem e se apoiem, especialmente fora da heteronormatividade. E aí é fácil se deparar imediatamente com o mapa concebido em 2010 por Franklin Veaux, educador sexual e coautor de More Than Two. Usando a teoria de diagramas de Venn, Veaux se dispôs a ordenar e categorizar, com dezenas de classificações e superposições, desde relações abertas à poligamia religiosa, passando pela polifidelidade (uma relação romântica ou sexual que envolve mais de dois, mas não permite relações fora do grupo sem um acordo). Também tem seu lugar a anarquia relacional, que, segundo a ativista e educadora Roma de las Heras, implica a não existência de uma diferença entre vínculos românticos ou não românticos, como amizades, família, relações de criação ou cuidados. “E, quando isso ocorre, não privilegia os primeiros sobre os últimos”, acrescenta.

O mapa de Veaux não para de crescer, e no Ocidente a não monogamia começa a deixar de ser tabu. Conceitos como fidelidade, adultério e chifres vão mudando. Muitos millennials cresceram num ambiente mais liberal e informado e veem o poliamor, por exemplo, como uma opção a mais. Há quem diga que a visibilidade da comunidade LGTBQI contribuiu para isso, ao abrir a porta a questionar valores estabelecidos.

Mais uma prova de que as relações não normativas deixaram as margens está nas telas. Nos últimos dois anos, a Netflix estreou Eu, Tu e Ela, comédia sobre um casal apaixonado por uma terceira pessoa; Nola Darling, versão do filme de Spike Lee de 1986 sobre uma jovem com três amantes, e Wanderlust, sobre um casal que tenta sair com outros, bem como vários documentários sobre a monogamia. Os atores de Hollywood também funcionam como alto-falantes, com Scarlett Johansson declarando que a exclusividade “não é natural” e a antiga garota Disney Bella Thorne apresentando sua namorada e seu namorado. A não monogamia ética — as relações consentidas com outras pessoas fora do casal — questiona os laços íntimos e emocionais que estabelecemos entre nós, pessoal e coletivamente. Esta é uma época em que se consomem amores, amigos ou casais de forma vertiginosa, como produtos? O que é realmente fidelidade? Ter vários casais simultaneamente rompe dinâmicas de poder e os padrões do passado? São muitas as perguntas que questionam um tipo de relação que, embora não seja monogâmica, deixa as coisas como estão (responda a questões para ver onde você se localizaria). Muitos ativistas defendem que a não monogamia é uma decisão essencialmente política, que vai muito além do sexo e da esfera íntima. “A monogamia não se desmonta transando sem mais, nem se apaixonando simultaneamente por mais gente, mas construindo relações de forma diferente que permitam transar mais e se apaixonar simultaneamente sem que ninguém se machuque no caminho”, escreve Brigitte Vasallo. Mas, é claro, não faltam aqueles que, aproveitando o discurso da não monogamia, vão deixando cadáveres à sua passagem.

São abundantes as críticas a uma não monogamia que não é política e consome relações como produtos

Para a jornalista britânica Laurie Penny, que pratica o poliamor há 10 anos e fala sobre isso no livro Bitch Doctrine, há algo profundamente millennial nessa mudança. “Algo unido a esta geração temerosa, frustrada e superanalisada, com um sentido exagerado das consequências de suas ações e o impulso de fazer o bem em um mundo louco. Queremos a liberdade sexual e o amor livre que nossos pais desfrutaram, pelo menos em teoria, mas também uma compreensão mais profunda do que pode dar errado. Queremos diversão e liberdade, mas também tirar boas notas no exame. Queremos fazer a coisa certa.”

Cabe esboçar um sorriso cínico diante de tudo isto, mas então se ignorariam as perguntas pertinentes que esta nova reflexão sobre o amor levanta: o que significam os papéis de gênero, qual o significado do compromisso, o porquê dos ciúmes. Em suma, o que é isso tão complicado de amar outros?

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