quarta-feira, 22 maio 2019
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Talíria Petrone, representante dos ausentes no Congresso | Atualidade

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Os edifícios residenciais de São Paulo têm um elevador para os moradores e visitas (social, como dizem) e outro para os serviços. Mesmo nos mais novos. Não é a única coisa que atrai a atenção do recém-chegado. Os elevadores dos prédios públicos na metrópole incluem a advertência de que a lei impede que alguém seja discriminado por causa de raça, sexo, idade, aparência … São lembretes de uma segregação que persiste. O Congresso é outro espaço que, como os elevadores sociais, se parece pouco com o Brasil que representa. Talíria Petrone, de 33 anos, é uma raridade nesses espetaculares corredores modernistas de Brasília. Mas “vão ter que se acostumar a ver uma mulher negra andando por aqui”, como ela mesma tuitou no dia de sua posse. Esta professora de história acaba de iniciar um mandato de quatro anos como deputada pelo Rio de Janeiro.

“Confirma-se que isso, mais do que o Congresso Nacional, é a expressão do Brasil colonial que não acabou. Ali estão juntos latifundiários, o que chamamos aqui de bancada da bala (defensores de armas), os banqueiros … majoritariamente homens brancos “, explicou ela por telefone na sexta-feira, 8. A Câmara dos Deputados e o Senado ganharam diversidade na legislatura que começa. Chegaram a primeira deputada indígena, mais negros e uma cifra recorde de mulheres, embora seja minúscula.

Aumentaram de 10% a 15%. A 132ª posição em 188 países, segundo dados da União Interparlamentar. Ao mesmo tempo, é o Congresso brasileiro mais conservador dos últimos 30 anos, segundo a Diap, entidade que radiografa sua composição.

Precisamente lá reside, insiste a deputada, “a importância de que nossos corpos e nosso programa ali estejam”. Ela leva para a Câmara “um mandato negro, feminista, LGBT e popular”. Um coquetel que combina quase tudo o que irrita a outra parte deste Brasil tão polarizado e que desde janeiro é presidido pelo militar reformado Jair Bolsonaro. Ela é a minoria em uma minoria parlamentar. Terá pela frente um amplo panorama de direitistas, mais ou menos aliados de um Governo que qualifica de perigosíssimo porque é “extremamente neoliberal, cheio de militares, com matizes autoritários e fundamentalista”.

Eleita pelo PSOL, o Partido Socialismo e Liberdade, cujo símbolo é um sol desenhado com um traço infantil, a sua principal missão em Brasília não poderia ser mais grave nem mais fundamental: “Estou no Congresso especialmente para defender a democracia”, porque, em sua opinião, o Brasil “está fora da normalidade democrática”. Uma anormalidade que é resumida em dois nomes próprios. Melhor, em três. Marielle Franco. Jean Wyllys e Anderson Gomes. Dois eleitos pelo PSOL e o motorista de Marielle. Ela era vereadora no Rio quando foi morta a tiros em seu carro há quase um ano, e o motorista também. Ninguém foi preso ou processado, mas o general responsável até janeiro pela segurança pública da metrópole aponta para milícias, grupos criminosos compostos de membros das forças de segurança, em atividade ou não.

Jean Wyllys foi o primeiro deputado abertamente gay em Brasília. No final de janeiro, anunciou que estava deixando o Brasil. Sem assumir sua vaga na Câmara, para a qual foi reeleito na última legislatura, por causa das ameaças e do clima cada vez mais hostil em um país profundamente religioso que se desviou mais para a direita. Seu substituto é outro homossexual, David Miranda, que tem dois filhos com o jornalista norte-americano que revelou os documentos de Snowden, Glenn Greewald.

Marielle e Talíria — assim são conhecidas no Brasil – eram uma espécie de gêmeas políticas. Juntas, decidiram dar o salto para entrar em outro desses espaços nos quais seus pares estavam ausentes. Uma foi eleita para a Câmara Municipal carioca; a outra, para a de Niterói. Era 2016. Elas se conheceram na favela da Maré, onde Franco cresceu e Petrone preparava adolescentes para entrar na universidade.

Esta filha de uma professora alfabetizadora e um músico também recebeu ameaças de morte. Ela acredita que as lutas não são escolhidas. Sente a responsabilidade de que as causas que seus companheiros representavam não sejam abandonadas. Quando perguntada se é corajosa, cita a cantora Nina Simone: “A liberdade é não ter medo”. Ela se desloca em um carro blindado pago pelo partido desde que sua escolta policial foi removida. Agora está vendo em Brasília qual proteção o Congresso poderá lhe oferecer.

As últimas eleições no Brasil conduziram a uma extrema atomização no Congresso, com o quase desaparecimento do centro e da centro-direita, embora o Partido dos Trabalhadores, de esquerda, seja, por pequena margem, o maior grupo. O PSOL dobrou seus assentos, passando a dez. E tem orgulho de ser a única formação paritária em um Congresso de 594 membros. Entre as experiências desagradáveis do primeiro dia, as piscadelas de um deputado e gestos com a língua “ignorando que sou uma deputada eleita”.

Ela se declara aberta a colaborar com os parlamentares que colocam a defesa da democracia em primeiro lugar, mas acrescenta que “seria preciso perguntar à direita se está disposta a garantir a democracia”. Em face do discurso tradicional, ela argumenta que não faz política identitária e que “o povo, a classe trabalhadora, as mulheres …” são a maioria social do Brasil.

Com eles em mente, pretende defender a democracia, a educação como instrumento de mudança, a questão socioambiental, os indígenas, “uma segurança pública com uma perspectiva de direitos humanos …”. Um enorme desafio num país com 64.000 assassinatos por ano (incluindo 8% pela polícia), onde uma boa parte da sociedade pede uma ação mais dura das forças de segurança. Outra deputada novata em Brasília é uma policial que entrou para a política depois de se tornar famosa por matar um ladrão armado.

O outro desafio de Petrone é a distância entre o Rio de Janeiro e uma capital construída nos anos 1950 no meio do nada por Oscar Niemeyer, como um símbolo da modernidade, mas também para manter o povo longe de seus representantes. Não quer perder contato com a rua. Como todos os eleitos do PSOL, Petrone se posiciona todas as sextas-feiras em uma praça central no Rio e, subindo em uma caixa, explica aos seus seguidores e a quem passa o que faz nesse espaço que acaba de pisar pela primeira vez e no qual terá quatro anos duros pela frente.

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