terça-feira, 19 fevereiro 2019
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Quando os Beatles deixaram de ser amigos | Cultura

Peter Jackson (Nova Zelândia, 1961) era uma criança quando os Beatles se separaram. Mas isso não o impediu de se tornar um colecionador obsessivo nos últimos anos, adquirindo abundante material pirata do grupo inglês. Um de seus bens mais valiosos é uma fita VHS com descartes do filme Let it Be. Para Jackson, aquelas imagens desbotadas foram uma revelação: além das misérias imortalizadas no documentário, havia uma banda criando música com prazer, até mesmo envolvendo improvisações vocais de Yoko Ono.

Agora, graças à aura proporcionada pelo sucesso de suas adaptações de O Senhor dos Anéis, o neozelandês conseguiu o trabalho de sua vida: usando tecnologia digital, vai restaurar todo o material filmado para Let it Be (há 55 horas inéditas) para refazer uma história que agora terá um final feliz. Ou, pelo menos, uma mensagem positiva: esta é a esperança da Apple Corps, a empresa de Paul McCartney e Ringo Starr, os dois Beatles sobreviventes, e aquelas duas viúvas ferozmente comprometidas com o legado de John Lennon e George Harrison.

Essa tinha sido uma ideia infeliz. O resultado das melhores intenções, é claro: ciente de que o quarteto estava em uma centrífuga dinâmica, Paul McCartney propôs, para reavivar a ilusão, promoverem um show único, talvez em um anfiteatro romano na Tunísia. O lema era voltar (o nome inicial do projeto era Get back) às origens: quatro caras tocando em inferninhos em Hamburgo e Liverpool, recuperando suas raízes do rock and roll e rhythm & blues. De alguma forma, coincidia com a viagem ao passado de Bob Dylan e seus músicos, The Band, realizada nas montanhas de Woodstock.

Os Beatles durante uma apresentação em Nova York em 1970


Os Beatles durante uma apresentação em Nova York em 1970 Getty Images

Como seu empresário, Brian Epstein, morrera em 1967, não havia uma voz com autoridade que abordasse os inconvenientes. Que eles precisavam descansar, depois da preparação do monumental álbum branco, divulgado um mês antes. Que eles não puderam repor a prateleira das canções novas. Que não era prudente reconstituir um grupo diante dos olhos das câmeras.

Em princípio, ninguém se opôs à que a equipe do cineasta Michael Lindsay-Hogg filmasse os ensaios e o show triunfal. Havia um elemento de narcisismo, óbvio, mas isso também correspondia à exploração bem midiática de todas as suas atividades. Lindsay-Hogg faria um programa de televisão, Beatles at Work, que funcionaria como uma promoção do disco resultante. Depois, isso se transformaria em um longa-metragem.

Estragaram tudo. Começaram a ensaiar nos estúdios cinematográficos da Twickenham, frios em todos os sentidos. A partir de 2 de janeiro de 1969, eles se ativeram ao horário do cinema, que começa a trabalhar bem cedo (os músicos preferem a tarde e a noite). Também aceitaram os gravadores de áudio das filmagens, em vez dos sofisticados aparelhos usados para gravar Abbey Road. Para piorar as coisas, dispensaram George Martin, colocando no comando Glyn Johns, então um simples engenheiro de som.

Paul McCartney e sua mulher, Linda, com a filha Mary, em 1969


Paul McCartney e sua mulher, Linda, com a filha Mary, em 1969 Cordon Press

Eles tentaram, escute. Receberam Yoko diplomaticamente, ela que costumava responder às perguntas feitas a John (e dava conselhos musicais, apesar de sua reconhecida ignorância de tudo sobre o rock). Mas a corda se rompeu na parte mais suscetível: Harrison, ferido pelos comentários de McCartney, partiu em 10 de janeiro e só retornou no dia 15, quando ficou decidido levantar acampamento e passar para a gravação do hipotético disco.

Iriam inaugurar seu próprio estúdio, no porão do prédio da Apple, construído por Alexis Mardas, o suposto gênio eletrônico da empresa. Não sabiam que o chamado Magic Alex era um presunçoso, incapaz de materializar suas visões (ele também enganaria o futuro rei Juan Carlos, se isso serve de consolo). Mardas lhes havia prometido gravar em 72 canais, quando os grandes estúdios usavam 4 ou 8 canais. Mas sua instalação não funcionou e, com muita pressa, foi necessário remodelar o espaço e instalar máquinas cedidas pela EMI, com o resignado George Martin dando uma mãozinha.

John Lennon e sua mulher, Yoko Ono, em Londres em abril de 1969


John Lennon e sua mulher, Yoko Ono, em Londres em abril de 1969 Cordon Press

É um milagre que, apesar de tudo, eles pudessem se recompor e gravar a música. Com um quinto membro: George convidou o tecladista norte-americano Billy Preston, tanto por suas habilidades musicais como para que servisse de amortecedor entre tantos egos sensíveis. Preston também participaria do que seria o clímax do documentário: um show no terraço da Apple. Já tinham descartado a ideia de tocar na Tunísia: Ringo tinha compromissos como ator e Harrison se recusou claramente a viajar; Lennon e Ono estavam flertando com a heroína.

Para se ter uma ideia da deterioração de suas relações: quando McCartney se casou com Linda Eastman, nenhum de seus companheiros compareceu, e eles faziam piadas de mau gosto sobre o famoso rumor de que Paul havia morrido. Sem se deixar abater, McCartney conseguiu reunir a banda, que embarcou no final de fevereiro em outro novo álbum. Embora tenham tentado outros estúdios (Trident, Olympic) e um produtor diferente (Chris Thomas), George Martin finalmente se ocuparia do seu canto de cisne, o soberbo Abbey Road.

Let it Be ficou como o patinho feio: ninguém se entusiasmou com o resultado, mas era urgente torná-lo lucrativo. Pediram mixagens a Glyn Johns, depois rejeitadas sem comentários. Foi enfim finalizado por um produtor histórico, Phil Spector, que adicionou alguns coros e orquestrações que Paul detestou, reafirmando sua decisão de abandonar os Beatles. E o filme? Reduzido drasticamente, de 210 para 88 minutos, estreou em maio de 1970, mas nenhum dos quatro protagonistas estava presente. Teve uma fria acolhida. Com uma exceção: Hollywood, em sua infinita sabedoria, concedeu-lhe o Oscar de melhor trilha sonora do ano.

Quatro músicos em números vermelhos

A atividade frenética dos Beatles também teve um estímulo extra. Um de seus contadores, Stephen Maltz, enviou-lhes uma carta com notícias devastadoras: haviam gastado além de suas possibilidades, deviam quantias significativas em impostos. Diante do que Maltz definiu como “finanças desastrosas”, procuraram um empresário para tirá-los do atoleiro. Descobriram que figuras do establishment estavam dispostas a ajudá-los, de Richard Beeching, o “salvador” da rede ferroviária britânica, a Lord Poole, conselheiro econômico de Elizabeth II. Mas preferiam alguém da indústria musical norte-americana. Paul tinha ideias muito claras: o pai e o irmão de sua nova mulher, Lee e John Eastman, que haviam feito fortuna em publishing (gerenciamento dos direitos das canções). Uma solução inaceitável para seus companheiros de equipe, pois reforçava o poder de Paul. Eles impuseram Allen Klein, um sujeito do setor discográfico, duro e de reputação duvidosa. Foi quando McCartney chutou o balde.


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