quarta-feira, 18 setembro 2019
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‘Museu’: de um roubo histórico ao resgate da cultura mexicana | Cultura

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A memória é um museu em constante curadoria. Há peças de um passado remoto que parecem se mover de uma sala à outra com o passar dos séculos, e momentos que não se repetem, mas atesouram-se intactos, sem que os anos passem por suas vitrines. No espelho de nossa história comum e íntima, o Museu Nacional de Antropologia se ergue como epicentro emocional do passado compartilhado não só por mexicanos, mas também por habitantes de um planeta azul que, bem de longe, parece uma bola de gude aquática onde houve um ontem na interminável cronologia da humanidade, no qual um rei todo-poderoso foi enterrado em Palenque, com o rosto coberto com a máscara de jade, inestimável por sua atemporalidade. Foi chamado de Pakal, e sua biografia encarna um período de deslumbrante esplendor da cultura maia; seu corpo, enterrado com pó de zinabre, deveria viajar ao infinito sem limites e, no entanto, na noite de 24 de dezembro de 1985, sua valiosa máscara foi roubada juntamente com outras 140 joias arqueológicas, para perplexidade e espanto do México e do mundo.

Entre 1984 e 1986, fui professor de Sociologia I e II, e também professor de Metodologia e Técnicas de Pesquisa do Instituto para a Administração do Tempo Livre da YMCA, na Cidade do México. Era monitor de licenciatura e havia sido convidado para dar essas aulas por meus queridos professores Antonio Bassols e Daniel Galindo, baluartes exemplares dos estudos oferecidos naquela instituição, mais voltada ao esporte e conhecida por uma contagiante canção interpretada – bíceps e biquíni – pelos bonecos do Village People. Além da academia, piscina olímpica e vasta gama de atividades desportivas, a Guay oferecia uma licenciatura em Tempo Livre, onde não poucos saíram com diplomas com projetos de Brinquedotecas Públicas, Academias ao Ar Livre ou uma tese sobre Mudanças no Regulamento Internacional do Voleibol, que lhes assegurava um emprego digno como professores de Educação Física nas escolas de ensino médio ou preparatórias, ou como potenciais dirigentes desportivos em centros municipais. No entanto, havia alunos notáveis, e lembro com carinho da rotina madrugadora dos horários das aulas, da calistenia fingida nos equipamentos de ginástica e das muitas viagens que fiz – saindo da classe – até o Atotonilco, buscando concluir minha própria tese e conseguir me sentir um historiador (querendo, na verdade, transformar-me não mais do que em escritor).

Faltavam poucos dias para o Natal de 1985, e a Cidade do México continuava empoeirada na ruína e desolação causada pelo terremoto de 19 de setembro. Terminávamos o semestre com uma aula que tentava resumir alguma passagem da história do México e, ao mesmo tempo, as quadrículas e tralhas mais úteis nisso que se chama Metodologia de Técnicas de Pesquisa. As metáforas recorrentes durante aquele curso eram casos de Sherlock Holmes como Historiador com lupa, e como mineiro nas profundezas do desconhecido; tudo para tornar atraente a tediosa tarefa de tentar escrever uma tese e não recorrer ao imensamente popular plágio, muito na moda antes do advento da Internet e do instantâneo fact-checking. Até Umberto Eco recomendava o plágio em seu best-seller Como se Faz uma Tese, como alívio para quem não estivesse disposto a queimar os neurônios na pesquisa e construção de um livro próprio!

O fato é que, após os abraços natalinos, um dos alunos me pediu para falar em particular e tirou alguns papéis de sua mochila. Lembro-me que era um jovem estudioso e entusiasta – embora o museu da memória tenha apagado por completo seu nome e sobrenome – e que tinha o estranho hábito de beber em classe pequenos potinhos de leite desnatado, desses que costumam servir com as xícaras de café. Contou que sua mãe afanava coisas no Hotel María Isabel Sheraton e que, ao fazer a limpeza de um dos quartos, havia encontrado no cesto de lixo (ou talvez, sobre a mesa do quarto) os papéis que me entregava naquele momento e tinham datilografados os nomes de quase duas centenas de peças arqueológicas do Museu Nacional de Antropologia e História. Naquela pré-história, as páginas tinham de 23 a 26 linhas, datilografadas e com espaço duplo; as folhas pareciam ter sido escritas com o então útil recurso do papel carbono (considerando que não era tão fácil fazer fotocópias), e o aluno estava preocupado em ter descoberto as pistas de um roubo absolutamente impossível.

Acaba de estrear em 700 cinemas no México – para então ser exibido no YouTube – o filme Museu, dirigido por Alonso Ruizpalacios e estrelado por Gael García Bernal. Não perca este filme, pois é o testemunho cinematográfico não apenas de um roubo que parecia impossível, mas também a pista visual de um México que já não existe mais. Como máscara de jade, restou a face de um México onde a censura e o puritanismo civil teriam impedido já não um filme, e sim uma digna investigação de um mistério: quem se atreve a roubar peças do mais importante museu antropológico do México, um dos melhores do mundo, e, além disso, colocar no mercado negro, por exemplo, a máscara de jade do rei Pakal? Uma coisa é que, em 1985, era preciso ficar em longas filas para fazer fotocópias, e outra, muito grave, que a segurança do museu mais importante do México não dependesse de alarmes sensíveis, e sim de insensíveis guardas que faziam suas patrulhas com lanterninhas e que, além disso, haviam improvisado um brinde natalino sem imaginar que alguém pudesse entrar pelos vitrôs e roubar, em apenas uma madrugada, boa parte da memória maia.

Antes do fato – e graças ao pai de um estimado amigo que trabalhava no Hotel María Isabel Sheraton –, tanto meu aluno, como sua mãe e eu entregamos os papéis para a gerência do hotel, que elogiou a senhora por seu trabalho, prometendo entregar-lhe uma cesta de Natal (não sei se entregaram), mas me lembro que a todo momento enfatizavam que não era função dos funcionários do hotel revisar, examinar ou catalogar o lixo e outras coisas que são esquecidas nos quartos. Quatro ou cinco dias depois – já de férias – acordamos com a notícia do roubo e me reuni com meu aluno, sua mãe e o pai do meu amigo no mexicaníssimo bate-papo onde a conversa após a refeição é decantada com “aqui não aconteceu nada”, “ninguém sabe, ninguém sabia”, “cada um com o que merece” e “isso deve ter sido coisa de alguém ambicioso” e “é melhor ficar quieto”.

Anos depois do fato, os nomes dos ladrões foram revelados – Ramón Sardina e Carlos Perches Treviño – e também uma trama emaranhada onde aparecia como cúmplice – que depois foi absolvida – a chamada Princesa Yamal, vedete e dançarina de strip-tease que eletrizava os desejos de mais de um homem naquela época. Desconheço se Perches e Sardina se hospedaram no Hotel María Isabel Sheraton antes de realizar a louca aventura e se, de fato, esqueceram em um quarto seus papéis com a lista de joias que pretendiam roubar quatro ou cinco dias depois de deixar o hotel, e desconheço se isso ajuda a desvendar a trama cinematográfica construída sobre o ocorrido ou se contribui para transmitir o mexicaníssimo enigma do indecifrável, essa memória que beira o inexplicável, como o teto de concreto maciço de um museu que parece suspenso no ar por obra e graça de uma coluna de água.

Em uma esplêndida entrevista ao jornalista Luis Pablo Beauregard, Gael García Bernal transmite o sentido desse tipo de arqueologia fílmica que vai além de uma mera narração ou recriação ficcional de um feito insólito. A verdade é que um filme imperdível e, para voltar às memórias, mencionar que o aluno agora anônimo mereceu a melhor nota possível ao ter demonstrado – como detetive com potinho de leite em vez de cachimbo – o melhor olfato circunstancial em prol disso que chamam de Metodologia e Técnicas de Pesquisa.

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