sexta-feira, 15 fevereiro 2019
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Grammys 2019: O rap finalmente conquista o Grammy com ‘This Is America’, o manifesto antirracista de Childish Gambino | Cultura


De esquerda a direita, Lady Gaga, Jada Pinkett-Smith, Alicia Keys, Michelle Obama e Jennifer Lopez, nos Grammy. Em vídeo, os melhores momentos da gala. AFP | Vídeo: Reuters



É difícil apresentar os grandes vencedores da 61ª edição dos prêmios Grammy da música fixando-se apenas no número de estatuetas. Os ganhadores foram outros. Primeiro, o rap como gênero. Childish Gambino fez história com três troféus dados a This Is America. Dois deles, o de melhor canção e melhor gravação, nunca tinham sido dados a um rap. E segundo, foi a festa das mulheres. No palco, nos prêmios, nos discursos. Da apresentadora, Alicia Keys, até a mulher mais indicada da noite, Brandi Carlile, que ganhou três prêmios. As donas da noite foram Camila Cabello, Miley Cyrus, Jennifer López, H.E.R., Dua Lipa, Cardi B, Kacey Musgraves, Lady Gaga, Michelle Monáe, Chloe x Ache, e as homenageadas foram Dolly Parton e Diana Ross, com atuação especial de Michelle Obama.

O Grammy deste ano já começou sob um peso que marcaria toda a cerimônia. Historicamente, esses prêmios ignoraram os grandes artistas de hip hop nas categorias principais. Tanto fazia quantos grammys um rapper levasse, o prêmio de canção do ano ou o de álbum do ano sempre iam para o pop ou o rock. Essa realidade fez três dos grandes rappers deste ano, Kenrick Lamar (sete indicações), Drake (seis) e Childish Gambino (cinco) se negarem a atuar na cerimônia, como revelaram os próprios organizadores da cerimônia. Dois deles nem apareceram.

O gesto não podia ter tido mais impacto. Childish Gambino, nome artístico de Donald Glover, ganhou o prêmio de melhor canção do ano por This Is America. Nada de baladas nem de hits pré-fabricados. Ganhou uma canção de rap, de denúncia ao racismo cultural norte-americano, e com um dos clipes mais polêmicos do ano, que também venceu na sua categoria. Foi o primeiro rap a ganhar o prêmio de melhor canção do ano, e Glover não estava lá para recebê-lo. Ainda maior foi o incômodo ao lhe darem o troféu mais importante da noite, o de Gravação do Ano (um prêmio ao produto completo). Ludwig Göransson, coautor da música, não sabia dizer à imprensa onde estava Glover, nem se tinha falado com ele, nem confirmar se efetivamente sua ausência era uma forma de protesto.

Em seguia, um disco de country, Golden Hour, d Kacey Musgraves, ganhou como álbum do ano, superando os de Cardi B, Kendrick Lamar, Drake e Post Malone. Tudo o que Childish Gambino supostamente queria dizer com sua ausência da cerimônia foi dito sozinho. Musgraves acabava de arrasar na categoria country, com quatro prêmios ao todo, que fazem dela indiscutivelmente a artista do ano nesse gênero.

Na categoria específica de rap, ganhou God’s Plan, de Drake. O rapper canadense estava na cerimônia e apareceu de surpresa por trás do palco. E o álbum de rap do ano é Invasion of Privacy, de Cardi B, um favorito absoluto do público. Com a respiração entrecortada pelo nervosismo, Cardi B disse: “Talvez eu precise começar a fumar maconha”. Não houve ninguém mais fiel a si mesmo sobre o palco que Cardi B.

O cobiçado prêmio de melhor novo artista foi para a londrina Dua Lipa, que também ganhou um Grammy de melhor disco de dance por Electricity. Foi uma categoria de mulheres (seis dos oito indicados) que remexeram a indústria no último ano. Outra das nomeadas, H.E.R., ganhou dois Grammys, de melhor disco e melhor interpretação de R&B. Dua Lipa mencionou sobre o palco a impactante seleção de mulheres que disputavam o prêmio destinado a consagrar artistas jovens na indústria.

Esta foi também a edição do Grammy que apresentou Brandi Carlile ao grande público. A poderosa intérprete de americana, de 38 anos, era a mulher mais indicada da noite, com seis categorias, desafiando astros do rap e pop com sua música de raízes americanas. Em meio aos excessos do setor fonográfico, Carlile é uma mulher abertamente homossexual que vive numa fazenda com sua mulher e seus dois filhos, e irradia tanta simplicidade como força. Sua atuação ao vivo fez o Staples Center retumbar.

Carlile arrasou com os prêmios de melhor interpretação e melhor canção de raízes americanas (uma categoria que inclui música folclórica, bluegrass e blues tradicional ou contemporâneo) por The Joke e melhor álbum por By the Way, I Forgive You. “Saí do armário aos 15 anos no colégio e lhes garanto que nunca me convidaram a nenhuma festa nem baile”, disse Carlile quando agradeceu emocionada o terceiro prêmio. Carlile definiu a música tradicional norte-americana como “uma ilha de brinquedos inadaptados” onde gosta de brincar. À imprensa, explicou o que queria dizer: “A compartimentação do gênero não é totalmente justa, mas esta categoria abrange gente que não encontra um lugar e lhes dá uma plataforma”.

O que verdadeiramente define o sucesso dos Grammy como cerimônia não são os prêmios, e sim as atuações ao vivo, como a de Carlile. Neste capítulo, a edição número 61 deixou vários vídeos para rever no YouTube. Primeiro, uma impactante atuação de Camila Cabello, Ricky Martin e J Balvin, com Arturo Sandoval no trompete, que abriu a cerimônia em ritmo latino com Havana. Janelle Monáe e Cardi B triunfaram com espetaculares versões para o You Make me Feel e Money, respectivamente. Lady Gaga cantou Shallow, uma canção que não será em nenhum formato tão emocionante como nas imagens do filme Nasce Uma Estrela. Um desses momentos Grammy que a Academia tenta criar, com Post Malone e Red Hot Chilly Peppers juntos, acabou parecendo um pouco artificial.

Em música latina, Claudia Brant ganhou o melhor álbum de pop latino por Sincera. A categoria era uma mistura estranha, com álbuns de folclore como Musas Vol.2, de Natalia Lafourcade, e o pop de Prometo, de Pablo Alborán. O melhor disco de música alternativa ou rock latino foi para Aztlán, do Zoé. O de música regional mexicana, ¡México por siempre!, de Luis Miguel, e o melhor disco tropical para Anniversary, da Spanish Harlem Orchestra. O segmento foi precedido por Ángela Aguilar, Aida Covas e Natalia Lafourcade, que interpretaram Llorona.

A melhor compilação de canções para TV ou cinema foi a trilha sonora de The Greatest Showman. E a trilha do ano foi a composição de Ludwig Göransson para Pantera Negra. Entretanto, no duelo de grandes canções de filmes do ano ganhou Shallow, a canção de Lady Gaga, Mark Ronson, Anthony Rossomando e Andrew Wyatt para Nasce Uma Estrela, derrotando All the Stars, de Kendrick Lamar para Pantera Negra. Já ganhou o Globo de Ouro e será muito difícil que não ganhe também o Oscar.

No capítulo dos prêmios semiclandestinos para o público gral, mas que vale a pena mencionar, Alan Parsons ganhou seu primeiro Grammy por Eye in the Sky, 35th Anniversary Edition. Intérprete e produtor, Parsons começou sua carreira nada menos do que como engenheiro de som dos Beatles, e depois de 13 indicações nunca tinha conquistado um Grammy até este domingo, aos 70 anos de idade, na categoria de melhor álbum de áudio imersivo. Tori Kelly ganhou o prêmio de melhor interpretação de gospel por Never Alone, e de melhor álbum gospel por Hiding Place. Os filhos de Chris Cornell aceitaram em nome de seu pai o prêmio a melhor interpretação rock por When Bad Does Good. Cornell se suicidou em maio de 2017.

Se você pensa em dar música clássica de presente, segundo a Academia a melhor gravação de ópera do ano foi Bates: The (R)evolution of Steve Jobs, uma ópera contemporânea norte-americana, na versão dirigida por Michael Christie e interpretada pela The Santa Fe Opera Orchestra. O melhor compositor contemporâneo foi Aaron Jay Kernis por seus concertos para violino. E o melhor disco de música clássica foi o da regente JoAnn Falletta com peças de Robert Fuchs.

Houve durante a cerimônia homenagens a Dolly Parton (eleita Personalidade do Ano) e a Diana Ross por seu 75º aniversário. Parton, aos 73, continua fazendo shows pelos Estados Unidos e demonstrou por quê. Já Ross se esforçou com duas canções e terminou com um cômico “feliz aniversário para mim!”. Quem realmente conquistou a noite foi Jennifer López com uma coletânea de sucessos da Motown que cantou com Alicia Keys e Smokey Robinson. Foi de longe o melhor das comemorações destes Grammy em homenagem a outros tempos.

Normalmente, verdadeiras lendas costumam penetrar nas categorias menos seguidas dos Grammys. Buddy Guy ganhou o de o melhor disco de blues tradicional do ano por The Blues Is Alive and Well e foi aplaudido de pé, sem que tenha sido visto pela televisão. Guy tem 82 anos e começou a tocar nos anos 50. “Aprendi sozinho a tocar escutando a T-Bone Walker, BB King e gente assim, não tinha nenhuma educação musical”, contou na sala de imprensa. Guy ganhou sete Grammys em sua carreira, em um gênero, como admitiu, que não toca no rádio. “São só os mesmos discos o tempo todo. Tenho filhos que não souberam quem eu era até que aos 21 anos começaram a ir a clubes de blues.” Buddy Guy foi de certa forma um aviso dos fundamentos sobre os quais foi construído todo o resto que se ouviu na cerimônia: “Eu comecei com o blues e acabarei com o blues”.


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