quinta-feira, 18 abril 2019
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Argentina avalia ser o primeiro país do mundo com trigo transgênico | Internacional

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Nenhum país aprovou a comercialização de grãos geneticamente modificados de trigo, um dos alimentos básicos da dieta ocidental. A Argentina tem a possibilidade de se tornar pioneira com uma semente tolerante à seca desenvolvida pela empresa local Bioceres em colaboração com a francesa Florimond Desprez. Em regiões agrícolas com baixa pluviosidade, a tecnologia permite que o volume colhido seja aumentado em até 20%. Mas o Governo de Mauricio Macri hesita em assumir a liderança mundial pela oposição majoritária do setor rural. Os produtores alegam que o trigo transgênico poderia fechar os mercados devido à rejeição dos consumidores, o que já levou à desistência de multinacionais como a Monsanto.

“Toda vez que alguém propõe algo fora dos usos e costumes aparece um ato reflexo inicial para não mudar as coisas. Tendemos a pensar que o faça primeiro um americano, um europeu, um asiático, e quando for normal nós o faremos. O desafio é quebrar essa lógica e que nos encorajemos a liderar. Temos uma tecnologia que pode ser importante para o planeta como um todo”, diz o diretor da Bioceres, Federico Trucco, ao EL PAÍS.

Em 2018 a Argentina teve a pior seca dos últimos 50 anos, o que causou a perda de até 40% da colheita. De acordo com Trucco, com a semente HB4, dois milhões de toneladas de trigo a mais poderiam ter sido obtidas nessa safra, 10% do volume total de trigo cultivado no país. A tecnologia foi desenvolvida por pesquisadores da Universidade del Litoral a partir de um gene de girassol que lhe dá a capacidade de tolerar a escassez de chuvas. Também é resistente ao herbicida Prominens.

“Avaliamos que nos dá uma ferramenta de controle de ervas daninhas e resistência física, mas acredito que estamos começando de trás para frente. É um trigo que ninguém quer. No Canadá e na Austrália as multinacionais que estavam testando um trigo transgênico o abandonaram, não porque fosse um mau negócios, mas porque os consumidores não o querem. E eu, como produtor, tenho que ter a certeza de vender o que produzo”, diz por telefone Santiago Rodríguez Ribas, produtor da localidade de General Villegas, na Província de Buenos Aires. Entre as empresas que abandonaram o trigo transgênico está a Monsanto, que renunciou em 2004 à tentativa de comercializar uma semente desse cereal resistente ao glifosato.

Rodríguez Ribas ressalta que a Argentina não tem capacidade para manter dois circuitos segregados de comercialização de trigo, um transgênico e outro não. “Sempre fica um pouco de trigo nas colheitadeiras, nos silos de armazenamento, nos caminhões. O sistema não está preparado para garantir que não haja contaminação. Se mandamos um navio para o Brasil e ao fazer uma análise é detectado 0,004% de trigo transgênico, rejeitam o navio inteiro. Não há tolerância como acontece com corpos estranhos, como restolho, ou com umidade, que podem ser de 2%, 3% ou 5%”, explica. O produtor prevê que se a Argentina começar a cultivar trigo transgênico, todo o cereal do país entrará em uma categoria inferior de preço e perderá clientes.

GRANDE EXPECTATIVA NO PARAGUAI

Santi Carneri

O setor rural paraguaio vê com bons olhos o trigo HB4 para se proteger de secas como a que arruinou as culturas no ano passado. “Temos grande expectativa, porque se isso acontecer será uma coisa muito importante para a agricultura. Estamos acompanhando de perto e com grande interesse na descoberta”, diz José Cubilla, assessor agrícola da Câmara Paraguaia de Exportadores e Comerciantes de Cereais e Oleaginosas (Capeco). “Pensamos que o Ministério da Agricultura acompanhará, não será contrário, porque temos um acordo para buscar materiais genéticos a cada ano para melhorar o cultivo do trigo”, acrescenta o representante da Capeco.

O Ministério da Agricultura confirmou que o trigo HB4 já passou por todos os controles de biossegurança, mas “está sob avaliação para a liberação comercial”, segundo Santiago Bertoni, responsável de coordenação das relações agropecuárias internacionais da carteira agrícola. “Estamos muito conscientes de que, apesar de termos trigo, milho e algodão em uso, este seria o primeiro transgênico para consumo humano direto. É preciso ver a aceitação por parte do público, embora saibamos que é tão seguro como o trigo convencional”, acrescenta Bertoni. Na última safra o Paraguai colheu 1,4 milhão de toneladas de trigo e o cultivo do cereal se aproxima dos 500.000 hectares este ano.

“Como produtores temos muito medo de que os mercados voltem a se complicar. O Governo anterior colocou tantas restrições ao trigo que tivemos de importar. Depois de aumentar a produção e recuperar mercados, uma eventual contaminação com OGM [organismos geneticamente modificados] gera preocupações. Não somos contra a tecnologia, mas estamos muito longe de que exista mercado para o trigo transgênico”, concorda Roberto Campi, presidente da Sociedade Rural de Pergamino, na Província de Buenos Aires.

A soja transgênica, a principal cultura da Argentina, é destinada à alimentação animal, mas o trigo é para consumo humano, o que causa maior receio entre os consumidores, acrescenta Campi. Pão, massas, pizzas, biscoitos e doces, entre muitos outros produtos, são feitos a partir da farinha desse cereal. Dada a má imagem dos transgênicos, levá-los a um alimento tão comum até agora tem sido tabu.

“Existe um consumidor com alto poder aquisitivo que procura comer coisas saudáveis e por alguma razão, lógica ou emocional, associa os OGM a coisas pouco saudáveis. Esse consumidor tem preconceito contra os transgênicos, contra a agricultura industrial e até não quer consumir farinhas. Não miramos esse tipo de consumidor, mas aquele que procura alimentos baratos e toda a parte utilizada como ração animal ou para substituir os derivados do petróleo”, diz o diretor da Bioceres como possíveis usos do trigo HB4.

No ano passado, a Argentina aprovou 12 transgênicos, que incluíram novas variedades de soja, milho, alfafa e batata. O trigo HB4 passou pelo filtro da Senasa e da Conabia, organismos nacionais que garantem a ausência de riscos para a saúde e o meio ambiente. Falta o último: a autorização comercial da Secretaria da Agroindústria.

Essa secretaria por enquanto se opõe à aprovação devido ao risco de perder mercados. A Secretaria de Ciência, por outro lado, é favorável a promover um desenvolvimento tecnológico próprio. Macri reuniu há dez dias os titulares de ambas as agências oficiais em conjunto com Trucco e outras vozes relevantes no debate e pediu alguns meses para avaliar a situação. Nesse período, a Bioceres buscará convencer os importadores de trigo argentino, liderados pelo Brasil, a aceitar o produto.

O fato de que a Argentina seja um pequeno player no mercado mundial de trigo, com uma produção que representa 2,4% do mercado internacional, não ajuda para impor suas regras de jogo, diz Juan Balbin, presidente do Instituto Nacional de Tecnologia Agropecuária (INTA). Para Balbín, “a Argentina corre o risco de perder posição nos mercados” com uma aprovação apressada desse transgênico. Mesmo assim, acredita que um trigo tolerante à seca pode ser muito benéfico em regiões periféricas submetidas a ciclos de baixas precipitações e a prova disso é a expectativa de que despertou em vários países da região. “A empresa está buscando sua aprovação em vários países. Apresentou pedidos no Uruguai e no Paraguai, e no Brasil o fará em março”, disse Trucco. A Bioceres solicitou autorização para consumo nos Estados Unidos e também trabalha para ser aceita na Bolívia, Chile e Colômbia.

Alguns acionistas da Bioceres, como o conhecido o produtor Gustavo Grobocopatel, lembram que quando a soja e o milho transgênico foram aprovados também havia muitos riscos, mas a Argentina decidiu adotá-los e foi benéfico para a economia do país. As exportações agrícolas são a principal fonte de divisas: na última safra foram responsáveis pela entrada de 22 bilhões de dólares (cerca de 82,3 bilhões de reais). Três quartos da produção argentina de trigo é vendida atualmente no mercado externo. A Argentina opta pela cautela enquanto bate às suas portas.

No Brasil, maior comprador da Argentina, o trigo transgênico é proibido

Felipe Betim

O Brasil é um grande exportador de matérias-primas como a soja, mas o trigo é o único cereal que o gigante latino-americano importa. Aproximadamente 55% do trigo consumido no Brasil vem de outros países, e 87% desse volume é importado da vizinha Argentina. As cifras cresceram nos últimos anos: quase seis milhões de toneladas em 2018, contra cinco milhões em 2017 e quatro milhões em 2016, segundo a Associação Brasileira das Indústrias de Trigo (ABITRIGO). Entretanto, o Brasil não permite a produção nem a importação de trigo transgênico, explica Rubens Barbosa, ex-embaixador e presidente-executivo da ABITRIGO. A produção e comercialização de cultivos transgênicos só é permitida no caso de cinco produtos: milho, arroz, feijão, soja e algodão. Mais de 90% da produção brasileira desses dois últimos produtos, bastante vendidos a outros países, é transgênica.

Entretanto, os produtos transgênicos têm pouca aceitação entre os consumidores brasileiros, segundo Barbosa. Além disso, se uma empresa exportadora argentina decidir vender o trigo ou sementes transgênicas ao Brasil, o produto poderia ser rejeitado por não cumprir as normas técnicas e sanitárias do Governo, acrescenta o ex-diplomata. “Isso poderia deter a exportação argentina para o país”, explica.

Na opinião dele, também é possível que haja contrabando de sementes transgênicas, aumentando a produção brasileira e diminuindo a importação. O mesmo ocorreu com a soja há alguns anos, até que o Governo brasileiro decidiu alterar a legislação. “A soja transgênica beneficiou o produtor, e o Executivo se ajustou. Mas não é algo rápido nem automático, depende unicamente do Governo. Com o trigo se faz o pão e a massa, então o consumidor brasileiro pode rejeitar o transgênico”. O EL PAÍS tentou sem sucesso entrar em contato com o Ministério da Agricultura.

Cerca de 90% da produção brasileira de trigo se concentra no Paraná e no Rio Grande do Sul, Estados que fazem fronteira com a Argentina, e começa a se expandir para outra áreas. Os produtores enfrentam problemas climáticos, como o excesso de chuvas e a seca, de modo que as sementes transgênicas argentinas podem ter uma forte aceitação entre os produtores brasileiros, na opinião de José Augusto de Castro, presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil. “Em áreas de seca, se a colheita cair os preços sobem. Mas com uma semente resistente a períodos de estiagem o produtor pode planejar a quantidade que vai plantar segundo a demanda que tem. Tem muitas vantagens”, afirma.

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