quinta-feira, 18 abril 2019
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A morte do filho | Opinião

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“Como sobrevivi? […] torcia para não acordar no dia seguinte. Mas o dia amanhecia, eu abria os olhos e percebia que continuava viva […] era um misto de desânimo, depressão, tristeza, raiva […] o peito doía, dilacerado. Sentia-me paralisada, amputada.” (Gioielli & Gioielli, 2014, p.122)

A perda de um filho é insuportável, indescritível e inominável. Nem mesmo se consegue uma denominação para esses pais. Filhos que perdem pais são órfãos, cônjuges ficam viúvos, mas para a dimensão dessa perda não há nome.

A morte de um filho rompe com a lógica cronológica de que os pais morrem primeiro, jamais o contrário. Independente de quando ou como os pais aprendem a viver sem esse filho, essa perda é como uma cicatriz sempre visível que, com o tempo poderá sangrar menos, mas sempre será sensível e dolorida.

Filhos representam o futuro, continuidade, a descendência, o legado, sonhos e expectativas, idealizações, projetos, esperanças, desejos, fantasias e várias outras coisas impossíveis de serem descritas.

A morte do filho não rompe esse vínculo, e os pais iniciam uma árdua jornada para manter e preservar-lhes a memória. O medo de esquecê-los e que eles sejam esquecidos somados ao vazio da falta e à aniquilação do futuro provocam essa dor, relatada como a mais difícil de ser enfrentada. Para os pais, perdê-los é como tirar a própria vida. Parkes (2009) afirma que a morte do filho é a fonte de pesar mais atormentadora e dolorosa.

O luto é singular, único e individual, cada um o experimenta a seu modo. Trata-se de um processo influenciado por vários fatores, como: causa da morte (acidente, suicídio, doença repentina e aguda ou lenta e crônica); quem foi perdido, idade, o que representava e o vínculo e relações estabelecidos; características pessoais, história de vida do enlutado e a fase do desenvolvimento em que se encontra; habilidades para enfrentamento de frustrações; condições físicas e psíquicas do enlutado e sua rede de apoio. Enfim, suas condições internas e externas para lidar com a dor.

O conceito de luto e a expressão da dor também são influenciados de acordo com a cultura, costumes, valores morais e religiosos, por um século ou por uma era. É um processo em constante elaboração e o mais difícil de toda a vida do ser humano. Encontrar um significado para a perda é fundamental para sobreviver a ela.

Mortes e Lutos

Até o início do século XX, a morte foi denominada por Ariès (1977) como morte domada ou domesticada. Com uma medicina mais rudimentar, não havia tratamentos para muitas doenças ou ferimentos e, nessas condições, o indivíduo e seus entes queridos sabiam que a morte se aproximava. A morte e os ritos funerários costumavam ser em casa, junto aos familiares.

Graças ao avanço científico e tecnológico muitas doenças e ferimentos passaram a ter cura ou tratamentos que prolongam a vida. O hospital se tornou o lugar onde a vida é salva, cuidada e preservada e para onde a população se dirige. Por outro lado, as pessoas passaram a morrer nos hospitais, na maior parte das vezes na solidão das UTIs. E assim a morte saiu de casa e passou a ser vista como fracasso. Ariès (1977) a denominou de morte interdita ou invertida.

Ao mesmo tempo lidamos com o paradoxo da morte escancarada (Kovács, 2003), pública, violenta, inesperada, invasiva e midiática. A morte se transformou em espetáculo, quanto mais trágica ou mais cruel, mais ela vende e mais cara se torna. Se por um lado não se deve falar sobre a morte, por outro fala-se dela o tempo todo. É permitido falar desde que seja sobre a morte do outro, jamais sobre nossa própria perda, dor e luto.

Vivemos em uma época em que passar pelos processos de perdas e luto ficou mais difícil e solitário.

A forma como a morte acontece influencia a elaboração, compreensão e processo de luto. A morte abrupta e inesperada causa choque, que desestabiliza, desorganiza e dificulta a compreensão.

Morte Escancarada – Luto Complicado

Infelizmente, a cada dia mais pais perdem seus filhos de forma violenta e inesperada: morte súbita, acidentes, homicídios e suicídios.

Acidentes

Quando não há responsabilidade explícita de outra pessoa — É o caso de queda de raios, por exemplo. Apesar das perguntas “Por que comigo?”, “por que com o meu filho?”, “por que justamente naquela hora?”, entre vários porquês, há a compreensão da fatalidade. Saber que não há um culpado e que poderia acontecer com qualquer um pode ser uma espécie de consolo e favorecer a elaboração do luto. Porém, de forma alguma diminui a dor.

Quando há responsabilidade pelo acidente, a elaboração da perda pode ficar mais difícil. Se a culpa pelo acidente for do filho, além de lidar com a perda, os pais também se veem às voltas com a necessidade de reparação e preservação da índole do filho. Se a culpa for de outra pessoa, os pais podem desejar que o culpado seja punido, tal qual, em homicídios.

Homicídios

Em casos de homicídios, de modo geral, a família acredita que só terá paz quando o culpado pagar pelo que fez. Porém, nem sempre se tem conhecimento de quem matou e, quando se sabe, nem sempre o culpado é punido. Por outro lado, para que o culpado seja punido um longo e lento processo se arrasta, gerando angústia, ressentimento e muita dor para os familiares. A cada julgamento, o momento da morte e o sofrimento são revividos com intensidade. Ao término do processo, o culpado pode ser absolvido o que pode provocar sentimentos de injustiça, frustração, raiva e impotência nos familiares. Caso haja punição, a pena nunca é suficiente o bastante e em relação ao que foi perdido. Pode acontecer ainda de a culpa ser projetada na vítima, estimulando a revolta dos familiares.

A percepção de injustiça, o longo período decorrido entre a morte e o fim do processo, o resultado do julgamento e a necessidade de inocentar a vítima dificultam a elaboração da perda e a possibilidade de um luto complicado é alta. Parkes (2009) afirma que homicídios e suicídios são responsáveis pelos os lutos mais difíceis de serem elaborados.

Pais enlutados

A perda de um filho diferencia a pessoa e a sociedade tende a evita-la, levando para esses pais a sensação de exceção (só o filho deles morreu) e solidão. O estigma e o preconceito influenciam o processo de luto.

São vários os sentimentos após a morte de um filho, como grande desespero e tristeza, entorpecimento, apatia, negação e fuga; impotência e descrença frente à vida, estranhamento do mudo, raiva, revolta, frustração, irritabilidade e hostilidade, desamparo, medo do futuro e de perder outros filhos.

Os pais entendem que sua maior obrigação é cuidar do filho e, se ele morre é porque não fizeram bem a sua parte, talvez o maior motivo do sentimento de culpa.

Há que se respeitar o tempo de recolhimento dos pais enlutados e acolher sua dor. Eles precisam de aproximação, autorização para sofrer, ouvir e falar à exaustão sobre seus filhos. É comum que mantenham os vínculos afetivos com esses filhos e, mesmo adaptados, não os esquecem em nenhum momento e podem continuar conversando e pensando neles, momento em que mais sentem falta de sua presença.

Muitos pais abraçam o motivo da morte de seu filho e dão a ela um novo significado. Pais que perdem seus filhos por morte traumática podem abraçar a causa e iniciar um trabalho voluntário com familiares ou pessoas que passam ou passaram pela mesma experiência. Alguns criam ONGs com o objetivo de diminuir os riscos, ou acolher os familiares. Outros encontram acolhida em grupos de pais enlutados. Há aqueles escrevem, desde textos soltos, diários e livros sobre a vida e morte dos filhos. Muitos compartilham a perda e a dor nas redes sociais como um meio de falar sobre o filho e acomodar a dor. Não importa o meio que os pais encontram para conviver com a falta de seus filhos, tudo é indicado, desde que lhes faça bem.

Lembro que a morte trágica, violenta, abrupta e inesperada, sempre é risco para luto complicado. É importante que a família receba um acolhimento por profissionais especializados como cuidados e prevenção de possíveis consequências.

Elaine Gomes dos Reis Alves é pós-doutora em Psicologia em Perdas, luto, emergências e desastres pelo IPUSP,  fundadora da Prestar Cuidados em Psicologia r membro do CEPED-USP e do LEM-IPUSP.

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